Cartas ao director

Portugal vs Espanha

O jornalista António Rodrigues publicou uma interessante notícia sobre as conclusões da Universidade de Outono do Podemos, em que um objectivo para a próxima década seria “que o país tenha uma Constituição do ‘século XXI’ que ponha fim ao regime existente”, entenda-se, bipartido entre democracia e monarquia, em que o chefe de Estado não é escolhido “por eleição mas por fecundação”.

A acrescer, os problemas judiciais do rei emérito e a fortuna em alegadas comissões pagas por ditaduras, sendo a monarquia, para o Podemos, entrave a um Estado moderno e justo. O diagnóstico do alegado atraso social espanhol coloca vários dedos na ferida, mas - quem somos nós – ao lê-lo julgamos ver um retrato do atraso social português e da sua corrupção endémica, e os nossos monarcas não andam por cá há mais de um século. Claro, coabitamos bem com o arremesso de culpas para os passados, de Coelho e Salazar a Afonso Henriques, que até “bateu na mãe”.

Bem haja o retrato, pictoricamente extraordinário, das maleitas do Estado. Mas basta olhar para Portugal para querer procurar mais culpados; observadores do mesmo calibre deveriam retratar os cancros da corrupção portuguesa e das dinastias não institucionais que governam o país.

Rosário Franca, Lisboa

O que é de mais

Sempre ouvimos dizer que “o que é de mais é moléstia”. E no que toca ao aumento dos combustíveis fósseis, o caso vai para além do admissível. O ISP, que é o mesmo que “imposto sobre a população”, jamais deveria incidir percentualmente sobre os preços dos ditos combustíveis, mas tão-somente restringir-se a um montante fixo/taxa fixa, mesmo que um litro de combustível custasse no posto de reabastecimento um ou dois euros. Assim, é imoral, é um assalto.

Portanto, não nos admira quem haja querer voltar à III dinastia – a filipina -, para ter os combustíveis mais baratos e o ordenado mínimo mais elevado do que cá se pratica. Depois, não nos venham dizer, como proferiu Marcelo Rebelo de Sousa, que são normas orçamentais e comportamentais da UE, o que se nos afigura uma mentira. Em face do exposto só podemos afirmar que os sistemas de vasos comunicantes não são os mesmos em toda a Comunidade Europeia.

José Amaral, Vila Nova de Gaia

Prioridades e critérios no SNS   

Os hospitais públicos do SNS têm previsto um enquadramento e uma classificação em função de vários critérios como os serviços médico-cirúrgicos disponibilizados e, particularmente, a população que servem. O CHVNGE - Centro Hospitalar Vila Nova Gaia Espinho serve uma população directa de 350.000 pessoas, indirecta de 700.000 e em áreas específicas de 1,2 milhões de habitantes, cumprindo todos os critérios do nível III há 20 anos.

A consequência da reclassificação é naturalmente dotar a unidade de meios materiais e humanos suficientes para atender às necessidades. Porque não foi ainda reclassificado não se sabe. O mais curioso é que após uma visita ao CHVNGE do primeiro-ministro, ministra da Saúde e presidente da Câmara de Gaia à instituição em Junho deste ano, estes terão prometido a respectiva reclassificação para breve. A mesma acabou por ser concretizada a 1 de Julho, mas não integralmente. Abrangeu apenas os vencimentos dos gestores, que passaram a ser remunerados em função da importância efectiva do hospital.

Quanto aos 1, 2 milhões de cidadãos que necessitem de acudir ao CHVNGE, podem ter o consolo de saber que a gestão do mesmo é reconhecida de topo. Quantos aos meios necessários, paciência…

Carlos J F Sampaio, Esposende

Orçamento e Oposição

Esta época do ano é sempre uma excitação para quem gosta e acompanha a política nacional. O Orçamento do Estado é, por definição, o diploma aprovado anualmente com maior importância para o dia-a-dia de todos. Não há volta a dar.

Ao longo dos últimos anos, temos assistido a uma discussão nesta matéria que ainda não consegui identificar bem se desprestigia o próprio Orçamento ou as questões laborais. São coisas diferentes, e a esquerda, que tem preocupações e causas nesta área, tem contribuído para esta confusão que temos assistido. Até porque torna todas as conquistas em matéria laboral bastante mais precárias do que se discutidas à parte.

Este ano temos a normal dramatização à esquerda e o afastamento da direita. Mas há um ingrediente novo: a confirmação do desnorte do PSD. Contribuir para a aprovação do Orçamento é para a direita estar a fazer um favor ao PS e por isso Rui Rio perderia a liderança. Provocar uma crise política, seria ir a eleições com dois candidatos a líderes, o que podendo não ser benéfico para o PS, poderia sê-lo muito mais para a extrema-direita. Enfim. É a oposição que temos.

Pedro Perdigão, Lousada