Morreu a soprano Edita Gruberova, a “rainha da coloratura”

Aclamada intérprete de óperas de Mozart, Donizetti ou Verdi, a cantora lírica eslovaca morreu esta segunda-feira em Zurique aos 74 anos.

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A cantora eslovaca Edita Gruberova, uma das mais apreciadas sopranos de coloratura da sua geração e uma requisitada intérprete de óperas de Mozart, Donizetti ou Bellini, morreu esta segunda-feira em Zurique, aos 74 anos, em sequência de um acidente doméstico, informou a sua família.

Com uma carreira internacional de meio século, contada desde que subiu ao palco da Ópera de Viena, em 1970, para interpretar a personagem da Rainha da Noite na Flauta Mágica de Mozart, até 2019, quando finalmente se retirou, Edita Gruberova conquistou a alcunha de “rainha da coloratura” pela sua voz de características invulgares, que pôs à prova em papéis particularmente difíceis.

Filha de pai alemão e de mãe húngara, Gruberova nasceu em 1946 em Bratislava, um ano após a Eslováquia voltar a integrar a Checoslováquia no fim da Segunda Guerra Mundial. E foi ainda na actual capital da Eslováquia que frequentou o Conservatório local, entre 1961 e 1968, ano em que se estreou também na Ópera de Bratislava, interpretando a Rosina do Barbeiro de Sevilha, de Rossini.

Apenas dois anos depois estava já a actuar na Ópera de Viena, e ao longo dos anos 70 iria percorrer alguns dos principais teatros de ópera do mundo e consagrar-se como uma das mais apreciadas cantoras líricas contemporâneas.

Na sua extensa carreira, ela própria lembrava com particular afecto, como confessou numa entrevista de 2016, algumas das suas actuações desses anos, como o de Zerbinetta na ópera Ariadne auf Naxos, de Richard Strauss, que interpretou pela primeira vez em 1976, e com grande sucesso, na Ópera de Viena, sob a direcção de Karl Böhm, e que se tornaria depois um dos seus papéis de referência, ao qual regressaria muitas vezes. 

“Gruberova não só era capaz de cantar com assombrosa naturalidade a dificílima partitura de Strauss, como transmitia uma contagiante alegria”, escreve no jornal espanhol El País o musicólogo Pablo R. Rodríguez, que atribui ao êxito desta sua actuação de 1976 a facilidade com que se abriram para a soprano os principais teatros internacionais, da Royal Opera House em Covent Garden, Londres, onde interpretou a Giulietta de I Capuleti e i Montecchi, de Bellini, em 1984, com o maestro Riccardo Muti, ao Scala de Milão, cujo público aplaudiu, em 1987, o seu desempenho da personagem Donna Anna, de Don Giovanni, de Mozart.

Entre os muitos outros papéis que assumiu com reconhecido brilho inclui-se, por exemplo, a Violeta de La Traviatta, de Verdi, que cantou no final dos anos 80 numa produção de Franco Zeffirelli para a Ópera Metropolitana de Nova Iorque, conduzida pelo maestro Carlos Kleiber. E deu voz a várias personagens de Donizetti, como a já citada Lucia, mas também Maria Stuarda, Anna Bolena ou Lucrezia Borgia, das óperas homónimas, e a rainha Isabel I da tragédia Roberto Devereux, o papel com que veio a despedir-se dos palcos em 2019, na Ópera da Baviera, em Munique.

Elogiando “a voz incomparável de Gruberova, que tocou os corações de várias gerações de entusiastas da ópera”, a secretária de Estado da Cultura austríaca, Andrea Mayer, do partido ecologista Os Verdes – Alternativa Verde, afirmou: “A Áustria, e em particular Viena, podem dar-se por felizes que a primeira pedra da sua carreira internacional tenha sido colocada nesta cidade, à qual Edita Gruberova regressou sempre com carinho até se retirar dos palcos”.

E o director da Ópera de Viena, Bogdan Roščić, lembrando que a diva, ao longo da sua carreira, apresentou mais de 700 récitas naquele teatro, sublinhou que a “perfeição vocal” nunca fora para Gruberova “um fim em si mesmo”, mas um dom que pusera sempre “ao serviço da música e das suas melhores interpretações possíveis”. As suas Zerbinetta, Rainha da Noite ou Lucia, entre outras interpretações, ficarão, vaticinou ainda Roščić, como “pontos de referência válidos para as gerações futuras” e “momentos culminantes da expressão humana”.