Inspecções de motociclos? Assim não

Quem quiser, verdadeiramente, salvar vidas na estrada deveria antes investir nas principais causas de acidentes com motas: a falha humana e a condição da via.

Não há absolutamente ninguém que não deseje maior segurança rodoviária. Todavia, o que não devemos deixar acontecer é permitir que essa “bandeira de todos nós” seja utilizada por “alguns” em medidas tão onerosas quanto inúteis.

As “boas intenções” das inspecções aos motociclos acima dos 125cc são, até agora, facilmente desmentidas pelos factos. 

Por estatística. Os estudos indicam claramente a “falha mecânica” como causa quase irrisória de acidentes com motas. As principais causas são, de muito longe, a “falha humana” e a “condição da via”. Quem quiser, verdadeiramente, salvar vidas na estrada deveria antes investir nestas duas últimas causas mas isso dá trabalho e resultados, não receita fácil.

Por bom senso. Desde o camião até à trotinete, nem todos os veículos que circulam na estrada estão sujeitos à necessidade de inspecção. A bitola de “quem tem e quem não tem” é a do bom senso e a das Leis da Física. Quanto maior, mais pesado e mais perigoso para os demais utentes da estrada, maior a moral do Estado para exigir uma inspecção que tranquilize toda a sociedade. No que concerne aos veículos mais pequenos, de duas rodas com e sem motor, a maioria das vítimas dos seus acidentes são apenas os seus próprios condutores, isto é, os primeiros interessados na sua própria segurança, independentemente da exigência ou não de qualquer inspecção.

Por critérios técnicos. As motas são veículos bastante mais simples do que os veículos de quatro rodas, com menos componentes e com uma exposição visual quase total dos mesmos. Isto é, a degradação na maioria dos elementos de segurança (pneus, travões, suspensão) é mais facilmente detectável pelo próprio ou pelas autoridades rodoviárias que, à mínima suspeita, poderão sempre e em qualquer altura remeter para “inspecção B”. Aliás, como já referido publicamente pelas próprias autoridades, não raras vezes se encontram veículos de quatro rodas em estado de degradação acentuado, apesar de, curiosamente, exibirem o selo das suas “inspecções anuais obrigatórias” realizadas há poucos dias. Isto significa que, para quem quiser, verdadeiramente, tornar a estrada mais segura, será mais eficaz investir nas autoridades (meios pessoais e técnicos) para criar a firme convicção nos condutores de que poderão ser fiscalizados na estrada em qualquer dia do ano, do que apenas obrigar ao mesmíssimo encargo total apenas para os motociclistas tratarem de obter um selo de inspecção num centro à sua escolha, um único dia por ano e com as evidentes “limitações” acima referidas.

Por critérios políticos. Mais uma vez, este Governo veio ameaçar com as inspecções às motas já no início do próximo ano sem sequer se saber, concretamente, o que é que vão inspeccionar, que elementos, com que critérios e quais as especificações técnicas regulamentares. Isto é, de certeza absoluta, apenas temos o anúncio público de que se procura mais uma “taxa e taxinha” de muitos milhões de euros, cobrada aos mesmíssimos motociclistas que já pagam os combustíveis, o IVA até sobre equipamentos de protecção e os IUC mais incompreensíveis, em que uma “mota de vinte anos” paga tanto como se fosse um “veículo de luxo” a estrear. A política é a “arte de escolher” e convém escolher bem. Numa matéria tão sensível como a da Segurança Rodoviária e em que estão em causa, principalmente, as vidas dos próprios motociclistas, optar pela “opção mais fácil”, aquela que apenas nos leva mais dinheiro sem nos aumentar verdadeiramente a segurança parece-nos, no mínimo, de muito mau gosto...

Nas últimas décadas, os motociclistas portugueses nunca exigiram nenhum privilégio na estrada ou no Estado, como condutores ou como contribuintes. Apenas exigem ser tratados com respeito e não apenas como “fontes de rendimento fácil”. Num país como o nosso, em que a segurança rodoviária é publicamente humilhada por carros do Governo que fazem Lisboa-Algarve em 90 minutos ou que intervêm num atropelamento mortal mas em que ninguém desse mesmo (des)Governo propõe sequer geo-referenciadores para inspecção dos carros pagos por todos nós, em que o ministro Eduardo Cabrita diz querer drones de última geração para passarem multas de trânsito mesmo até sobre estradas esburacadas e ainda sem rails protegidos, ou em que um secretário de Estado anuncia inspecções logo em 90 dias, das quais ainda só consegue garantir o aumento da receita de milhões mas não o aumento da nossa segurança, tudo só poderá ser entendido como mais um “lapso” governamental que deve ser corrigido como já fizeram outros países europeus, suspendendo imediatamente o processo de inspecções. Aí, sim, talvez alguém acredite nas boas intenções desta medida. Até lá, por favor, não brinquem com quem leva a Segurança Rodoviária a sério.