Diocese de Viseu está a investigar duas suspeitas de abuso sexual

Padre de 46 anos terá mandado mensagens de teor sexual a menor de 14 anos. O caso está a ser investigado pelo Ministério Público e o sacerdote foi suspenso preventivamente de funções. Comissão diocesana tem outro processo em investigação.

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O padre em causa tinha requerido uma licença sabática antes de ser preventivamente suspenso de funções Daniel Rocha

A diocese de Viseu está a investigar dois casos de suspeita de abuso sexual de menores cometidos por membros da Igreja. Um dos casos envolve um padre suspeito de enviar mensagens de teor sexual a um menor de idade e que já foi, entretanto, suspenso preventivamente de funções, por decisão do bispo, D. António Luciano.

O padre em causa tem 46 anos e, antes mesmo de ter sido suspenso, terá requerido uma licença sabática pelo período de um ano alegando desgaste físico e emocional. “Doente, cansado, com imensos outros trabalhos, com problemas pessoais motivados por venenos e conjuras, pedi ao senhor bispo de Viseu, e obtive, um período de descanso”, escreveu o sacerdote na sua página de Facebook, conforme adiantou a Rádio Renascença.

Esta decisão, porém, foi tomada apenas depois de o menor de 14 anos ter mostrado as mensagens ao pai. Este, incomodado, fez uma denúncia ao Ministério Público, que está também a investigar o caso, conforme noticiou o Correio da Manhã

A Comissão de Protecção de Menores e Adultos Vulneráveis da diocese de Viseu, instituída em Fevereiro de 2020, adiantou, pela voz do advogado Luís Coimbra, em declarações à Renascença, que a denúncia relativa a este caso lhes chegou em Abril e que “a comissão tomou as diligências de prova que entendeu, reuniu os elementos e produziu um relatório final que fez chegar às entidades competentes, nomeadamente ao Ministério Público e às instituições que dentro da Igreja tratam das questões do foro canónico”.

O núncio apostólico (representante diplomático da Santa Sé em Portugal) D. Ivo Scapolo já terá sido igualmente inteirado do caso, sendo que na comissão diocesana criada para o efeito em Viseu há outro processo aberto. “Conseguimos identificar a vítima e o eventual visado, mas ainda estamos em fase de instrução do próprio processo”, precisou Luís Coimbra, dando conta de outras denúncias que chegaram à comissão mas cuja investigação foi suspensa devido às dificuldades encontradas até na identificação das vítimas.

Viseu foi uma das quatro dioceses que não responderam quando, em Maio, o PÚBLICO fez uma ronda pelas várias comissões diocesanas de protecção de menores para aferir quantos casos de abuso sexual de menores ou adultos vulneráveis cometidos por membros do clero estariam a ser investigadas no país. O assunto voltou a ser notícia na passada semana quando, em França, um relatório indicou que poderão ter existido até 330 mil vítimas de abusos cometidos por clérigos e outros membros da Igreja francesa, entre 1950 e 2020.

Em Portugal, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) continua a não centralizar as queixas relativas a abusos sexuais cometidas por clérigos, mas esta falha deverá ser colmatada assim que, a partir de Novembro, for criado um grupo para acompanhar os casos a nível nacional, composto por representantes das comissões que já existem em todas as dioceses portuguesas. Ao PÚBLICO, o coordenador da comissão do patriarcado de Lisboa, D. Américo Aguiar, que se tem batido por uma maior transparência da Igreja na forma como lida com estas denúncias, descartou, porém, a possibilidade de se fazer em Portugal um estudo retrospectivo semelhante ao promovido pela conferência episcopal francesa, a não ser que este não esteja exclusivamente centrado no clero, mas seja transversal aos diferentes sectores da sociedade.

Esta terça-feira, em Fátima, o bispo D. António Marto não se escusou a comentar o assunto e defendeu que “todas as acções que tiverem de ser feitas para o reconhecimento da verdade deverão ser feitas”, pelo que “todas as denúncias devem ser imediatamente comunicadas às autoridades judiciais”, as quais têm “meios, recursos, para investigar e chegar ao apuramento da verdade muito melhor e mais rapidamente”. “É preciso que as pessoas que se sentem vítimas, seja no presente seja no passado, façam ouvir a sua voz”, apelou.