As metáforas militaristas da pandemia: batalha, inimigo, heróis, vitória

Embora retoricamente eficaz, a metáfora pode ao mesmo tempo limitar e distorcer a compreensão.

 As metáforas militaristas são comummente usadas por políticos e jornalistas na abordagem de crises pandémicas. Nos primeiros meses da pandemia de covid-19, palavras como batalha, luta, guerra, inimigo, heróis, vitória surgiram frequentemente nos discursos oficiais em Portugal e no mundo. O presidente francês Emmanuel Macron anunciou o confinamento do seu país em Março de 2020 com a frase: “Estamos em guerra”. No Reino Unido, num discurso “raro” a rainha Isabel II comparou as medidas para vencer o coronavírus com a evacuação durante os bombardeamentos nazis na Segunda Guerra Mundial. Em Portugal, na primeira declaração do estado de emergência, em 18 de Março de 2020, a palavra “guerra” é a mais citada no discurso do Presidente, entre frases como “combate duro e longo”, “inimigo invisível”, “combate diário” e em Abril seguinte, no prolongamento do estado de emergência, o Presidente referia-se à pandemia como “adversário insidioso e imprevisível”, “combate da vida e da saúde”. Em Maio passado, na abertura da Assembleia Mundial da Saúde, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, exortou o mundo a entrar numa “economia de guerra” contra o coronavírus.