Líder de Taiwan garante que não irá “vergar-se” à pressão da China

Discurso de Tsai Ing-wen é feito um dia depois de Xi Jinping ter afirmado que a “reunificação” entre os dois territórios irá ser concretizada.

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Tsai prometeu resistir às ambições de anexação pela China RITCHIE B. TONGO / EPA

Taiwan não irá “vergar-se à pressão” exercida pela República Popular China, garantiu este domingo a presidente taiwanesa, Tsai Ing-wen, num discurso considerado forte pelos analistas e que deixa clara a intenção das autoridades da ilha em manter o seu percurso autónomo face a Pequim.

A líder do território reivindicado pela China prometeu que não irá agir “precipitadamente” perante as ameaças de Pequim, mas deixou uma garantia: “Não pode haver absolutamente qualquer ilusão de que o povo taiwanês irá vergar-se à pressão.”

A “pressão” a que Tsai se referia é traduzida pela ambição da China de anexar Taiwan, um território que está fora da alçada do regime chinês desde 1949, quando os nacionalistas do Kuomintang fugiram para a ilha a menos de 200 quilómetros da costa depois de serem derrotados pela guerrilha comunista de Mao Tsetung. Desde então, Taiwan tem seguido um percurso político alternativo ao da China, com um sistema democrático, uma das economias mais abertas do mundo e a garantia de vários direitos e liberdades individuais.

No entanto, tanto a China como Taiwan reivindicam a soberania do território chinês – o nome oficial de Taiwan é República da China e o seu reconhecimento diplomático exclui relações formais com Pequim, e vice-versa.

O discurso de Tsai, proferido no Dia Nacional de Taiwan, fecha uma semana de elevada tensão entre a China e Taiwan, marcada por alertas sombrios, provocações militares e declarações fortes dos líderes de cada um dos lados do estreito. Na véspera, o Presidente chinês, Xi Jinping, condenou o “separatismo” em Taiwan e prometeu concretizar a “reunificação” com a ilha.

Ao contrário do que já fez no passado, Xi não fez referências a uma solução militar para levar a cabo o desígnio de anexação de Taiwan, mas as autoridades da ilha prometem responder a qualquer tentativa de intervenção.

“Iremos continuar a reforçar a nossa defesa nacional e a demonstrar a nossa determinação para nos defendermos, de forma a assegurar que ninguém poderá forçar Taiwan a seguir o caminho que a China delineou para nós”, afirmou Tsai. Esse caminho, continuou a líder taiwanesa, “não oferece nem um estilo de vida livre nem democrático para Taiwan, nem soberania para os 23 milhões de habitantes”.

A ambição de Pequim é que Taiwan siga o exemplo de Macau e Hong Kong, territórios que gozam de uma certa autonomia política, embora administrados pela China ao abrigo da fórmula “um país, dois sistemas”. Esta solução é amplamente rejeitada pelas autoridades taiwanesas, sobretudo depois da degradação da situação política em Hong Kong, onde as liberdades e os direitos que ali vigoram são cada vez mais ignorados pela presença mais forte do Partido Comunista Chinês.

Nas últimas décadas, o statu quo nas relações entre a China e Taiwan tem sido marcado por um frágil equilíbrio diplomático e securitário em que a ambiguidade é uma peça-chave. A posição de Taiwan é garantida pela relação especial que mantém com os EUA – a partir dos anos 1970, Washington deixou de reconhecer oficialmente Taiwan, mas manteve relações informais fortes, sobretudo na área da Defesa.

Porém, nos últimos tempos, a ascensão do poder chinês tem coincidido com um aumento da pressão sobre Taiwan, que tem perdido aliados a um ritmo sem precedentes (apenas 15 países mantêm relações diplomáticas formais com a ilha). Ao mesmo tempo, a China tem também feito valer o seu poderio de uma forma mais visível, com um recurso cada vez mais intenso a voos de aviões militares no espaço aéreo taiwanês.

No seu discurso, Tsai reconheceu que a situação no Estreito de Taiwan é “mais complexa e fluida do que em qualquer outro ponto nos últimos 72 anos”.