A luta contra a pseudociência não pode ser só de alguns

A pseudociência (sobretudo na área de saúde) tem consequências graves que vão do “mero” prejuízo financeiro (com os custos associados a tratamentos totalmente ineficazes) a um bem mais importante, o impacto na saúde.

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Sessão de acupuntura Nuno Ferreira Santos

O sucesso da vacinação em Portugal com uma pequena franja da população a mostrar-se reticente ou anti vacinas faz-nos acreditar que estamos longe de outros países onde esta realidade alternativa pode ter consequências ao nível da saúde pública. A expulsão recente do juiz negacionista Rui Fonseca e Castro pelo Conselho Superior de Magistratura pode-nos igualmente fazer crer que está tudo bem, mas de facto não está.

A pseudociência (sobretudo na área de saúde) tem consequências graves que vão do “mero” prejuízo financeiro (com os custos associados a tratamentos, suplementos e medicamentos totalmente ineficazes) a um bem mais importante impacto na saúde (no caso do cancro, quem recorre a medicinas alternativas em vez dos tratamentos tradicionais tem um risco de morte 2 a 3 vezes superior).

Se assim o é, porque é que quando ligamos a televisão nos típicos programas da manhã e da tarde continuamos a ver personagens que promovem acupuntura, homeopatia, naturopatia, reiki, lavagens intestinais, desintoxicação plantar, iridologia e por aí adiante? Se o espaço mediático ganho por estes promotores de banha da cobra é mau independentemente das circunstâncias, é sobretudo grave quando tal acontece no serviço público de televisão que deveria ter um crivo ainda maior com a mensagem transmitida na área da saúde tendo em conta que o público-alvo destes programas são um grupo de risco.

A legitimação dada a estes profissionais alternativos num célebre “Prós e Contras” de 2019 foi a prova viva do perigo que esta visibilidade mediática pode ter num público sem arcaboiço científico e mais sensível a argumentos falaciosos.

Quem já colaborou com estes programas e teve oportunidade de falar com os respetivos produtores, sabe do problema que possuem em encontrar conteúdos que consigam “encher” um programa de três horas de segunda a sexta-feira, o que nos leva a outra questão muito importante a este nível: quantos cientistas e académicos estão dispostos a abdicar de um pouco do seu tempo para colaborarem neste tipo de programas, falando de forma perceptível para um público diferente do habitual?

É relativamente comum o pensamento de que estas colaborações são algo “bimbas” e desprestigiantes, mas é justamente essa sobranceria que faz os profissionais alternativos esfregarem as mãos e terem espaço aberto para publicidade gratuita às suas clínicas, serviços e livros. Quando as pessoas certas, as faculdades e as ordens profissionais não ocupam um lugar de destaque na comunicação pública da ciência, mais espaço existe para as pessoas erradas e as consequências são pagas por todos.

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Porque é que quando ligamos a televisão nos típicos programas da manhã e da tarde continuamos a ver personagens que promovem acupuntura, homeopatia, naturopatia, reiki, lavagens intestinais, desintoxicação plantar, iridologia e por aí adiante? Getty Images

Os “sommeliers” da comunicação de ciência preocupam-se vezes demais em combater o tom e não o conteúdo. O dia seguinte ao célebre Prós e Contras acima citado, teve junto da comunidade médica tantas vozes a aplaudir a prestação possível de quem lá foi dar o “corpo às balas”, como outras a criticar a forma e o tom “trauliteiro” como essas intervenções foram feitas, o que revela que de facto as prioridades estão ligeiramente alteradas.

Quem tenta promover a ciência e a desmistificação de mitos na área da saúde para o grande público está sempre sujeito a comentários negativos, mensagens privadas em tom ameaçador e até processos por difamação. É por isso legítimo que nem todas as pessoas optem por “sujar as mãos” e ter esse tipo de exposição e desgaste. Criticar quem o faz pelo tom e não pelo conteúdo, faz lembrar aquelas situações na escola quando tínhamos um colega que era sempre o que mais ousava participar nas aulas e sempre o mais solícito a responder a qualquer pergunta do professor. Muitas vezes quando se enganava na resposta todo o resto da plateia troçava e ria de forma nervosa pois sabia que também poderia não ter a resposta para aquela pergunta, mas não teve sequer a coragem de arriscar.

Neste momento a luta contra estas ameaças da pseudociência e correntes negacionistas diz respeito a todos os que defendem a ciência (quer individual quer institucionalmente) e não só a alguns. Manter o conforto de um silêncio é legítimo, mas é igualmente cúmplice.