IrRomper, um guião dramático sobre doença mental

Actores profissionais e pessoas com doença mental sobem ao palco do Auditório do Centro Paroquial de Aldoar, no Porto, com IrRomper, um espectáculo pronto a derrubar o estigma.

Foto
Ismael Calliano

Estão todos em palco. Nando Palavrinhas imagina uma conversa entre Gabriel Janota e Quim Tone. “Olha, hoje vamos ao teatro e tu vais ver o que são gajos esquisitos! No final, vais achar-te a pessoa mais normal do mundo, podes ter a certeza. Estão lá todos os marados mais marados do mundo e arredores.”

O espectáculo chama-se IrRomper. Junta actores profissionais e pessoas com algum tipo de doença mental, que para ali confluíram do Grupo de Teatro e das Vozes da Esperança da associação Encontrar+se. Está em cena no Auditório do Centro Paroquial de Aldoar, no Porto, pelas 18h deste sábado, 9 de Outubro, e do próximo, 16 de Outubro.

O texto que representam foi escrito por si e por companheiros que por diversas razões saíram do projecto. Juntaram-lhe excertos das apresentações públicas que alguns fazem sobre a sua experiência de doença mental, enquanto membros das Vozes da Esperança.

Paulo Soares, que encarna Nando Palavrinhas, revelou-se precioso no processo de escrita. E essa ganhou importância à medida que a pandemia de covid-19 foi obrigando o grupo a trabalhar à distância, a centrar-se mais no texto, a adiar a representação.

Quem o vê a arrancar gargalhadas aos outros não imagina, mas há dez anos Paulo foi alvo de despedimento colectivo do jornal O Primeiro de Janeiro. De então para cá, alternou períodos de desemprego com “empregos falhados”. “A minha ansiedade aumentou mil por cento. A ansiedade paralisa. Já dei por mim a faltar a entrevistas de trabalho com medo de falhar.” Estava a senti-la a aumentar ao aproximar-se o dia da estreia. Ajudaram-no ali a domá-la.

Foto
ISMAEL CALLIANO
Foto
ISMAEL CALLIANO

O nervoso miudinho pode assumir proporções que ninguém ali gosta de pensar. “Ffff! Acabei de cortar a cabeça da minha metade”, diz Ana, pela voz de Susana Alves dos Reis, caindo no chão. “Senti estar ali a livrar-me de um peso, mas eu era mais feliz com ela. Sobre amores de perdição nunca mais pude ouvir, ler e falar. Já o que eu vivo… Maldita!”

“É fácil rotular tudo e todos”

Os diagnósticos podem ser complexos. Joana Plácido sofre de doença bipolar. “A minha missão, nas Vozes da Esperança, é falar sobre o facto de conseguir fazer tarefas normais: cuidar de mim, trabalhar, criar um filho.” Tudo mudou num repente. “O meu irmão morreu aos 22 anos. Eu tinha 21. Foi um choque muito grande. Tive uma grande depressão e uma mania incrível. Nem sabia o que era. Depois, fiquei normal.” Com a medicação, ia estando compensada. “Na menopausa tive outra vez crises muito fortes.”

“É fácil rotular tudo e todos, como se pudéssemos inserir nas pessoas placas com nomes que não existem e esquecer o ser único que somos”, diz agora a fada do som, interpretada por Maria Oliveira e Silva. “Por isso acontece o estigma, a discriminação. É difícil retirar esses rótulos de nós próprios e dos outros.”

Quando chegaram à Encontrar+se, alguns, já tinham feito teatro amador. Animaram-se com a ideia de trabalhar com profissionais do espectáculo, como Rui Spranger e Mané Carvalho, sob a direcção artística de José Eduardo Silva. E, após a estreia de dia 3, sentiam-se gratos pela experiência. Joana, que faz de Joana, mãe, Francisco, queria fazer mais – pelo prazer que aquilo lhe dá, pela terapia que representa.

Actor e encenador, José Eduardo Silva também se dedica à investigação em teatro, desenvolvimento psicológico e participação – é investigador do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho. Há anos que colabora com a Encontrar+se, onde põe em prática o que vai estudando. Nas manhãs de quarta-feira orienta oficinas de teatro com os utentes. O trabalho deu agora um salto com este projecto desenvolvido em parceria com a Apuro – Associação Cultural e Filantrópica e com financiamento da Direcção-Geral das Artes.

“Toda a gente pode ser afectada por algum tipo de perturbação”, lembra José Eduardo Silva. Basta, por exemplo, um pico de trabalho, uma tragédia pessoal. “Isso não é uma coisa que deva cristalizar a ideia que se tem de alguém, vincular, mas há estigma, tabu.” E é por isso que importa – além de promover a saúde mental, de garantir o acompanhamento psicológico e psiquiátrico a quem precisa – combater o preconceito. “Às vezes, é aí que a pessoa se aproxima da criatividade, da inovação, da descoberta.”

Este sábado, às 15h30, no Auditório do Centro Paroquial de Aldoar, há conferência sobre arte e saúde mental com Cecília Villares. E este domingo, pelas 18h, Dia Mundial da Doença Mental, é lançado o documentário sobre o processo, com realização de Francisco Lobo e comentário de Luís Fernandes. No próximo dia 17, pelas 18h, um livro, Romper – teatro e saúde mental, que combina a peça com reflexões de profissionais, é apresentado por Rui Spranger.