Cancro da mama: a evolução do tratamento nos últimos anos

Outubro é o mês de sensibilização para o cancro da mama e importa dar a conhecer os avanços que se têm verificado no tratamento desta doença nos últimos anos e que nos permitem, cada vez mais, tratar eficazmente esta doença e olhar para o futuro com esperança.

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Angiola Harry/Unsplash

Em Portugal, o cancro da mama é o cancro mais comum nas mulheres, sendo detectados mais de 7000 novos casos por ano. Em todo o país, anualmente, cerca de 1800 mulheres morrem por causa desta doença, constituindo a segunda causa de morte por cancro no sexo feminino. Nos países desenvolvidos, entre 10 a 15% das doentes apresentam doença avançada ao diagnóstico. Pode também ocorrer nos homens, correspondendo apenas a 1% de todos os casos.

Se por um lado a incidência e a prevalência desta doença continuam a aumentar, por outro, o seu diagnóstico e tratamento têm evoluído de forma impressionante ao longo dos últimos anos, proporcionando menores taxas de reaparecimento do tumor, mais tempo e maior qualidade de vida para as doentes.

O tratamento pode passar por várias etapas, tendo como pilares a cirurgia, a radioterapia e a terapêutica sistémica. Esta poderá consistir em hormonoterapia, quimioterapia ou moléculas alvo, como anticorpos monoclonais ou fármacos inibidores de mecanismos celulares. A escolha e o plano de tratamento dependem da idade, da condição de pré-menopausa ou menopausa, do estado geral da doente, da sua história médica prévia, do tipo de características anatomopatológicas e do estadio do tumor, se está localizado ou metastizado, ou seja, presente noutros locais do organismo além da mama. A abordagem por um grupo multidisciplinar é crucial e todos os passos devem ser analisados e discutidos em equipa.

Existem, essencialmente, três tipos de cancro da mama: o luminal, o Her2 positivo e o triplo negativo. O tipo luminal, com expressão de receptores hormonais, representa 70% dos tumores da mama. Neste, a base do tratamento é a hormonoterapia, com a toma de um comprimido diário durante um período de cinco ou mais anos, podendo ou não ser necessária quimioterapia previamente. Por outro lado, no tratamento dos tumores Her2 positivos, é geralmente necessária a associação de anticorpos monoclonais que têm como alvo os receptores Her2. Por último, o tipo triplo negativo é caracterizado por alto risco de recidiva nos primeiros três a cinco anos após o diagnóstico e a quimioterapia é a base do tratamento.

Muitos avanços se têm verificado no tratamento do cancro da mama nos últimos anos. É com grande satisfação que vemos a crescente aprovação da utilização de fármacos em fases cada vez mais precoces da doença, sendo o objectivo máximo evitar o reaparecimento da mesma. No que aos tumores luminais diz respeito, a introdução dos fármacos inibidores de ciclinas, envolvidas no ciclo celular, veio revolucionar o tratamento do cancro da mama metastático, com medianas de sobrevivência global que podem ir além dos cinco anos de vida. Já no caso dos tumores Her2 positivos, existe hoje outra possibilidade de usar um dos principais anticorpos indicados para doença metastática, agora autorizado em contexto de doença residual após tratamento de quimioterapia primária seguido de cirurgia. Segundo os dados do ensaio que lhe deu aprovação, este tratamento reduz em 50% o risco de reaparecimento do cancro nestas doentes.

Também na doença avançada, novos fármacos têm vindo a surgir, sejam anticorpos ou inibidores de moléculas alvo, assistindo-se a uma mudança na taxa de apresentação de doença cerebral, característica destes tumores. Em contrapartida, o tipo triplo negativo é aquele onde os avanços são menos evidentes. Tratando-se do tipo de cancro da mama com pior prognóstico, a base do tratamento continua a ser a quimioterapia. Nos últimos anos, novas oportunidades de tratamento surgiram, desde a introdução da imunoterapia até novos fármacos inibidores de mecanismos do ciclo celular tumoral. Mais recentemente, surge uma nova esperança com um anticorpo dirigido contra um alvo existente nas células tumorais de vários tipos de cancro, com resultados muito encorajadores em doentes já previamente tratadas com vários fármacos para doença metastática.

Assim, assistimos hoje a uma clara evolução em todas as etapas do cancro da mama, desde o diagnóstico ao tratamento. É imperativo uma detecção precoce do tumor, não só pela auto palpação da mama, mas também pelo rastreio da população. Nunca é demais relembrar a importância de procurar ajuda especializada e diferenciada no tratamento desta patologia. A discussão dos casos clínicos entre as especialidades envolvidas, em contexto de reunião de grupo oncológico, é fundamental na definição da melhor estratégia individualizada para cada doente. O progresso acompanha-se do surgimento de novas moléculas e fármacos, cada vez mais capazes de dar resposta ao tratamento e à prevenção do reaparecimento do tumor, podendo transformar a cura desta doença numa realidade cada vez mais possível.