Manifestações anti-Bolsonaro reforçam Lula e desencanto com a “terceira via”

Protesto em São Paulo marcado por um exemplo de desunião na oposição a Jair Bolsonaro, com o representante do Partido da Classe Operária a chamar “canalha” a Ciro Gomes, que por sua vez tinha chamado “negacionista da democracia” a Lula da Silva.

Foto
Alguns manifestantes usaram bandeiras do Brasil, numa tentativa de reclamarem para eles o símbolo dos apoiantes de Bolsonaro EPA/Antonio Lacerda

As manifestações convocadas para este sábado pela oposição de esquerda ao Presidente do Brasil, com destaque para o Rio de Janeiro e São Paulo, começaram sem problemas de maior, mas também sem atraírem o eleitorado de direita que está desiludido com as políticas de Jair Bolsonaro.

A intenção dos organizadores dos protestos era promover o alargamento da frente contra Bolsonaro, para mostrarem nas ruas que o descontentamento não é exclusivo do eleitorado de centro-esquerda. 

No Rio de Janeiro, onde a manifestação começou ainda de manhã, às 10h locais (14h em Portugal continental), viram-se bandeiras dos partidos de esquerda e de movimentos sociais — e também bandeiras do Brasil, até agora um exclusivo das manifestações de apoio ao Presidente Bolsonaro, e que a esquerda pretende recuperar como símbolo.

REUTERS/Ricardo Moraes
REUTERS/Ricardo Moraes
REUTERS/Pilar Olivares
EPA/Antonio Lacerda
EPA/Antonio Lacerda
REUTERS/Amanda Perobelli
Fotogaleria
REUTERS/Ricardo Moraes

Um dos políticos que discursaram na fase final do protesto no Rio de Janeiro foi Ciro Gomes, do Partido Democrático Trabalhista, pré-candidato à eleição presidencial de 2022 como alternativa à bipolarização entre Lula da Sila e Jair Bolsonaro.

Num discurso que recebeu aplausos e apupos, numa multidão que incluía muitos apoiantes do ex-Presidente Lula da Silva, Ciro Gomes disse que estava na manifestação de “peito aberto” e apelou a uma união contra Jair Bolsonaro “apesar das diferenças”.

“Precisamos aqui dar exemplo de que nós estamos mesmo pensando no povo e na democracia, e não em projectos menores”, disse Ciro Gomes. “Considero que o povo brasileiro, que está sendo obrigado a roer osso e a comer restos de carnes podres dos açougues, com o pior salário mínimo, o maior desemprego, está sofrendo o pão que o diabo amassou.”

O pré-candidato criticou a expressão “terceira via”, que é associada ao possível surgimento de um candidato forte para disputar o favoritismo de Lula da Silva e Jair Bolsonaro, classificando-a como “extremamente preguiçosa”. E disse que só ele pode discutir os modelos políticos e económicos para o Brasil, por estar à margem do “choque de personalidades” entre os dois adversários.

Num sinal da falta de união entre as diferentes correntes políticas e ideológicas além da esquerda, o representante do Partido da Classe Operária na manifestação em São Paulo, Antonio Carlos, chamou “canalha” a Ciro Gomes, que se referiu a Lula da Silva, no Twitter, como “um negacionista da política e da democracia”.

Pelo impeachment

Após o fim da manifestação no Rio de Janeiro, Ciro Gomes partiu para São Paulo, que também participa este sábado na onda de protestos contra a gestão de Bolsonaro e favor da sua destituição.

Na cidade mais populosa do Brasil, o protesto começou com discursos de líderes evangélicos, católicos, espíritas e budistas, enquanto continuavam a chegar manifestantes ao ponto de encontro. Segundo a Folha de S. Paulo, a maioria dos participantes são militantes partidários, de centrais sindicais e de organizações como o Movimento dos Trabalhadores Sem Tecto.

A principal reivindicação dos protestos deste sábado — que também acontecem em Portugal, principalmente em Lisboa, Porto e Braga — é a aprovação de um processo de impeachment contra o Presidente brasileiro. Mas os manifestantes queixam-se também da subida da inflação e da perda de postos de trabalho. Em Salvador, no estado da Bahia, o protesto contra Bolsonaro incluiu críticas à privatização dos Correios.

Numa sondagem do instituto Ipec, publicada na semana passada, Lula da Silva sai vencedor em todos os cenários. Numa corrida a dez, o ex-Presidente brasileiro tem 45% das intenções de voto, o que o deixaria à porta de uma vitória logo na primeira volta, contando com a margem de erro; e, numa corrida a cinco, Lula da Silva tem 48%, o que lhe garantiria uma vitória à primeira volta.

Bolsonaro, cuja popularidade está em queda, receberia 23% numa corrida entre cinco candidatos, à frente de Ciro Gomes (8%), do governador de São Paulo, João Doria (3%), e do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (3%).