A infância madura

A minha mãe sempre nos disse que não tinha tido infância, mas pensando bem, eu e os meus irmãos também não, foi-nos sempre pedida uma infância madura. Nem todas as crianças têm direito à infância.

Foto
Varshesh Joshi/Unsplash

Em miúdos, eu e os meus irmãos vivemos em sítios estranhos, por exemplo, numa capoeira. Quando o nosso pai morreu — era da Marinha e explicaram-nos que morreu devido a uma injecção de penicilina estragada durante uma missão ao estrangeiro —, a mãe começou a trabalhar numa fábrica de cortiça para ganhar o nosso sustento, mas foi logo despedida não sei porquê, acho que a empresa faliu.

Mais água para a maré de pouca sorte da nossa família, que quase nos afogou, pois ficámos sem ter onde morar. Perdemos a casa que era arrendada, apesar da pensão da Marinha do pai; não chegava para sustentar a casa e a família. Nessa altura de desesperança, um vizinho teve pena da minha mãe, que não tinha para onde ir com os filhos, éramos ainda muito pequenos, e ela uma mulher nova e literalmente com uma mão à frente e outra atrás para dar conta dos miúdos. Coitada da minha mãe, que desespero deve ter sentido, cada vez que penso nisso.

Como o tal vizinho tinha uma capoeira muito espaçosa e vazia no quintal, há anos que tinha deixado de fazer criação, mandou limpá-la para irmos para lá viver. Felizmente só passámos umas quantas noites na capoeira. Cheirava mal, a excrementos, e apesar das mantas que o vizinho e a mulher dele nos deram (também eram pobres, coitados, a casa deles não passava de uma barraca minúscula), na capoeira fazia um frio de noite que nos cortava os ossos e os sonhos.

Então, o padre que conhecia bem a nossa família e sabia que estávamos a viver como galináceos no quintal do vizinho, disse à minha mãe que podíamos ficar na igreja a dormir durante umas noites. Eu era muito pequena, tinha apenas quatro anos, mas lembro-me que quando estávamos deitados no chão da igreja víamos os santos a olhar para nós. A nossa respiração fazia eco e metia medo. Também fazia muito frio de noite na igreja, mas ao menos cheirava bem, a incenso ou àquilo que eu dizia à mãe na altura que achava ser “o perfume de Deus”. O cheiro da bondade.

A nossa vida recompôs-se porque o senhor padre conseguiu arranjar trabalho à mãe como interna numa casa de senhores ricos, de embaixadores, e nós passámos a viver no quarto dos criados. Dormíamos todos na mesma cama, que era apertada, mas ao menos a mãe tinha trabalho e nós uma cama lavada; também nunca mais nos faltou comida no prato. Ao contrário dos dias na capoeira, em que comíamos apenas um prato de sopa durante todo o dia, que o vizinho generosamente nos dava. Aquilo é que foi altruísmo a sério, é que nem para ele e para a mulher havia que chegasse.

A mãe trabalhava muito na casa dos embaixadores; além de limpar, era a cozinheira oficial. Sempre teve muito jeito para a cozinha, foi obrigada a ser criativa porque em nossa casa, mesmo quando o pai era vivo, nunca houve muita fartura na despensa. Nós também trabalhávamos em casa dos embaixadores. Tomávamos conta dos bebés, fazíamos as camas, limpávamos o pó, enfim, tudo o que a mãe nos mandasse fazer. Ninguém se atrevia a dizer que não. A mãe sempre foi mais dada à lambada do que aos beijos. Era assim que se educavam os filhos na altura. A nossa mãe trabalhava muito e educou-nos bem. Deve ter sido por ter tido uma vida tão difícil que, pouco passava dos 40 anos, teve uma trombose que a paralisou totalmente do lado direito do corpo, deixando-a acamada para o resto da vida.

A minha mãe sempre nos disse que não tinha tido infância, mas pensando bem, eu e os meus irmãos também não, foi-nos sempre pedida uma infância madura. Nem todas as crianças têm direito à infância.