Taliban penduram corpos de alegados raptores em praças da cidade de Herat

Cadáveres foram colocados em exibição “como aviso para outros raptores”. Na véspera, um dos líderes do movimento fundamentalista islâmico anunciou o regresso das execuções e amputações ao Afeganistão.

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Patrulha taliban em Herat Reuters

Os corpos de quatro alegados raptores, mortos em confronto com combatentes taliban, foram pendurados este sábado em diferentes locais da cidade de Herat, no Ocidente do Afeganistão. “Pendurámos os corpos nas praças de Herat como aviso para outros raptores”, afirmou o vice-governador da província com o mesmo nome, Shair Ahmad Emar, citado por media locais.

Segundo Emar, os homens tinham raptado um empresário e o seu filho e preparavam-se para os retirar da cidade quando foram vistos por uma patrulha taliban num dos checkpoints instalados pelo grupo fundamentalista. Seguiu-se uma troca de tiros e os suspeitos foram mortos.

Imagens de um dos corpos, pendurado numa grua, foram publicadas nas redes sociais. Mohammad Nazir, que vive em Herat, contou à Reuters que estava a fazer compras perto da praça Mostofiat quando ouviu um anúncio através de um altifalante chamando a atenção das pessoas. “Quando dei um passo à frente, vi que trouxeram um corpo numa camioneta, depois penduraram-no num guinaste”, descreveu.

Os vídeos do cadáver, manchado de sangue e a balançar da grua, estão a ser amplamente partilhados. “Esta é uma punição por sequestro”, lê-se numa folha de papel que o homem tem presa ao peito. Dezenas de pessoas juntaram-se rapidamente na praça.

Não há imagens dos outros três corpos, mas vários afegãos escreverem no Twitter que foram pendurados noutros locais centrais de Herat.

Estas imagens surgem um dia depois de um dos principais responsáveis taliban, mullah Nooruddin Turabi, ter dito numa entrevista à Associated Press que o grupo de volta ao poder no Afeganistão tenciona executar condenados e impor punições como a amputação dos ladrões, como acontecia durante o seu primeiro Governo, nos anos 1990.

Turabi, um dos fundadores do movimento fundamentalista islâmico, ministro da Justiça e da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício (entretanto reactivado) antes do derrube dos taliban do poder, em 2001, gere agora o sistema prisional afegão. Defende que castigos como as “amputações” têm um efeito dissuasor e são “necessários para a segurança” dos afegãos. “Toda a gente nos criticou por causa das punições no estádio [de Cabul, onde o grupo organizava execuções públicas e aplicação de castigos como apedrejamentos ou amputações], mas nós nunca dissemos nada sobre as suas leis e os seus castigos”, afirmou Turabi na entrevista à AP, em Cabul.

Herat, a 150 km da fronteira com o Irão, é a terceira maior cidade do Afeganistão e a capital cultural do país, conhecida pela sua arquitectura e pelos seus escritores e poetas.

Desde que conquistaram Cabul, a 15 de Agosto, semanas antes do fim da retirada dos Estados Unidos, os taliban têm insistido que não são o mesmo movimento que esteve no poder entre 1996 e 2001 e repetido promessas de que vão garantir os direitos humanos. Ao mesmo tempo, garantiram que não perseguiriam nenhum afegão que tivesse colaborado com o anterior governo ou com as forças militares estrangeiras.

Na prática, têm sido acusados de perseguir minorias, como os hazaras, assim como activistas ou gente que trabalhou com organizações internacionais, ao mesmo tempo que espancaram jornalistas que cobriam protestos contra o grupo. Nas universidades, foi imposta a segregação das mulheres e o uso do véu, enquanto as meninas a partir do 6º ano continuam sem saber se serão autorizadas a voltar à escola.