Canções de embalar o mundo

Um projecto sobre multiculturalidade resultou num belo livro (e CD) com 17 canções de imigrantes que escolheram viver em Portugal.

imigracao,miudos,educacao,livros,musica,lisboa,
Fotogaleria
África do Sul Anna Fedorova
imigracao,miudos,educacao,livros,musica,lisboa,
Fotogaleria
Paquistão Anna Fedorova
imigracao,miudos,educacao,livros,musica,lisboa,
Fotogaleria
Venezuela Anna Fedorova
imigracao,miudos,educacao,livros,musica,lisboa,
Fotogaleria
Paraguai Anna Fedorova
impar,
Fotogaleria
Brasil Anna Fedorova
impar,
Fotogaleria
O livro contém as partituras das canções de embalar
impar,
Fotogaleria
Capa do livro “NinaNinar”, editado pela Largo Residências e Boca – Palavras que alimentam Anna Fedorova

Começou por ser um espectáculo integrado no Next Stop Festival, no Metropolitano de Lisboa (2019), “para celebrar a diversidade residente no eixo da Av. Almirante Reis, através de propostas artísticas de inclusão da comunidade imigrante local”. Palavras de Marta Silva, directora do Largo Residências, nas primeiras páginas do livro.

Na freguesia de Arroios, estão identificadas mais de 90 nacionalidades. Quiseram dar-lhes voz. Telma Pereira, também dali, propôs “a criação de NinaNinar, um concerto documental com a respiração do mundo”. Assumiu a direcção artística e a interpretação: “Queria reunir um conjunto de canções que só existem porque as cantamos uns aos outros em (quase) todos os lugares do mundo. Que, ao escutá-las, lhes reconhecemos uma geografia. Que pertencem ao corpo que abriga o sono antes do sonho.”

Ucrânia, Rússia, Finlândia, Itália, Holanda, Turquia, Bangladesh, Palestina, Japão, Paquistão, Portugal, Brasil, África do Sul, Cabo Verde, Nigéria, Venezuela, Paraguai são os países de origem de quem se dispôs a revelar a intimidade partilhada com os filhos no momento de os embalar e adormecer. Mas os protagonistas de NinaNinar foram muito para além disso, recordando histórias que não são de embalar e nos reenviam para tempos e cenários nem sempre felizes.

Registemos aqui este emotivo depoimento de Bhani, que nasceu em Dhaka, Bangladesh: “Quando os embalo, as nossas mentes conectam-se, eu gosto e os meus filhos gostam. Às vezes quando canto adormecemos juntos!” E a canção começa assim: “Vem, vem tia Lua. Põe um bindi na testa da Lua (bebé). Ó Lua, ó tia do sono, faz uma visita à nossa casa. Não temos cama, por isso dorme nos olhos do meu filho.”

Foto
Anna Fedorova

Do Japão, chega este registo, com o título Canção de embalar de Edo (antigo nome de Tóquio): “Dorme, dorme bebé, dorme. És um bom bebé, dorme. Onde foi a tua ama? Foi a casa, para lá da montanha. Como lembrança da sua aldeia, o que te trouxe? Um tamborzinho e uma flauta de bambu.”

E que dizer de Thula, Thula? Uma canção de África do Sul, partilhada por Rosey. “Não chores, bebé, não chores. A mamã vai voltar de manhã. As estrelas estão guiando o papá, iluminando o seu caminho para casa. Quando lhe disserem para voltar, estaremos todos lá para o receber.” Diz-nos ainda esta mulher que cresceu em Komani: “É uma canção na minha língua, o xhosa, a língua de Nelson Mandela. É muito emocional por ser do tempo do apartheid [o regime de segregação racial que vigorou no país entre 1948 e 1994].”

Ler este livro e escutar o CD em família contribuirá certamente para que todos se apercebam da riqueza que a multiculturalidade nos traz. Os textos são divulgados também na língua original e há ainda espaço para a reprodução das partituras. Todos as poderemos cantar.

Há várias apresentações do livro e CD agendadas: a primeira é em Lisboa, na Biblioteca de Alcântara, no dia 1 de Outubro às 21h; segue-se a Feira do Livro do Funchal, Praça Manuel Arriaga, no dia 20 de Novembro às 10h30 e o Teatro Cine Gouveia, a 11 de Dezembro pelas 15h30.

Foto
Anna Fedorova

Vai-te embora papão também nos remete para a infância. Trazida por Amélia, portuguesa da aldeia de Santa Catarina, lembra-nos como era preciso expulsar o papão “de cima do telhado” e deixar o menino dormir “um soninho descansado”. Bons sonhos.

E porque as fichas técnicas merecem ser totalmente descritas quando há espaço, aqui vai o que não coube na edição em papel:
Direcção musical, arranjos, piano e clarinete: Carlos Garcia
Registo das entrevistas e co-criação do espectáculo: Ariel Pinheiro
Participantes: Amélia Figueiredo, Anna Fedorova, Anita Morgan, Bhani Islam, Beniko Tanaka, Chiara Ruzzier, Danilo Lopes, Gülami Yeşildal, Laura Suonperä, Max Provenzano, María Sabatini, Mariana Lemos, Priscila Ferreira, Rosey Almeida, Rolf Coppens, Shahd Wadi, Sumaira Shahbaz, Tamara Motriy.
Músicos convidados: Danilo Lopes e Gülami Yeşildal
Participação especial: Sofia Gomes, Sophia Almeida e Lara Cabral (Jardim de Infância dos Anjos)
Revisão e tradução: Oriana Alves e Telma Pereira, com a ajuda de Atsushi Kuwayama, Bohdan Hetmanets, Carlos Carvalho, Carolina Casu, Danial Shah, Hans Verbeemen, Hugo Maia, Inês Espírito Santo, Ismail Aydin, José Milhazes, Miguel Cardoso, Nayem Hasan, Osagiator Oghowman, Precious Izekor, Ritva Carvalho, Rodolfo Castro, Sadia e Stha Yeni.
Gravação: John Klima no Scratchbuilt Studios em Maio de 2020
Edição áudio: Carlos Garcia
Mistura e masterização: Nuno Morão
 

Mais artigos Letra Pequena e blogue Letra Pequena