Nuno Graciano acredita que o “voto silencioso” vai dar surpresa em Lisboa

O candidato do Chega fez uma campanha só de contactos na rua. Quase todos o recebem com cordialidade, mas há quem se mostre eufórico - “faço tenções de votar em vocês” - e quem vire a cara - “Chega? Deus me livre!”

Foto
LUSA/MANUEL DE ALMEIDA

Nuno Graciano faz parar a comitiva para meter conversa com um barbeiro e decide nesse momento que vai rapar o cabelo. “Vamos lá a uma máquina zero?”, pergunta, com meio pé já dentro da barbearia. “’Bora”, responde-lhe o outro. “Zerinho!”, reforça Graciano.

O candidato do Chega à Câmara de Lisboa diz que teria sempre de cortar o cabelo até ao jantar-comício desta sexta-feira com que vai encerrar a campanha ao lado de André Ventura. Não lhe pareceu mal que fosse a meio de uma acção de contactos com a população nas ruas de Alvalade, deixando os apoiantes à espera durante uns bons dez minutos. “Vocês gozam, mas para mim faz muita diferença. E assim apoia-se o comércio local”, diz Graciano já cá fora.

O passeio pela Av. da Igreja e algumas transversais termina daí a pouco, quando os comerciantes correm até baixo as grades dos seus negócios.

Durante uma hora, no penúltimo dia de campanha oficial para as autárquicas de domingo, o ex-apresentador televisivo ouve de tudo. “Ah, o Chega? Deus me livre!”, respondem-lhe numa esplanada. “É neste mesmo que eu vou votar”, diz um homem que passa. “Do Chega? Nem pensar”, reage uma pessoa. “Pode-me dar o folheto, faço tenções de votar em vocês”, assegura outra.

Junto a um restaurante alguém sussurra que é militante do partido. Quando Nuno Graciano diz alto “ah é militante!”, o outro pede-lhe que fale mais baixo. “O Chega está envolto num voto silencioso”, acredita o candidato, replicando as palavras do líder e confiante numa surpresa na noite eleitoral. Até agora, nenhuma sondagem indica que o partido consiga eleger vereador. “As pessoas sentem-se incomodadas no seu dia-a-dia e não há ninguém que lhes esteja a dar resposta”, diz Graciano, acusando “os socialistas” de estarem “de costas voltadas para as pessoas”.

João Vaz, candidato à junta de Alvalade, diz que o Chega é bem recebido nas ruas por pessoas acima dos 50 anos e mais rejeitado pelos jovens. Isso acontece durante a acção naquela freguesia como já tinha acontecido na véspera, no Parque das Nações. “Não tem vergonha do seu partido?”, perguntou-lhe uma adolescente na marina. Junto a um parque infantil a conversa foi diferente. “A ver se a gente muda isto, que estamos fartos de esquerdopatia”, disse-lhe um homem.

Nuno Graciano não concorda com a leitura de João Vaz. “Temos ido buscar uma fatia bastante razoável à abstenção e também muita malta que vai votar pela primeira vez”, diz.

Os dois temas de que fala recorrentemente são a higiene urbana e a insegurança. “Está sempre assim, sempre”, comenta ao passar por um caixote do lixo a abarrotar. “Por incrível que pareça fui o único candidato que falou disto nos debates. Tirando as zonas centrais, Lisboa é maioritariamente uma cidade suja”, refere.

Em Alvalade ouve palavras de incentivo de um funcionário da junta: “Ando a limpar sarjetas de manhã à noite para levar 700 euros para casa ao fim do mês. Tem de se acabar com isto.” Também se envolve em discussões. “Olha, tanto racista junto”, atira uma rapariga de etnia cigana. “Racista porquê? Explique-me lá”, responde Graciano. “Então o que é que o Ventura quer fazer aos ciganos?”, responde ela. “O Ventura não tem nada contra os ciganos, não gosta é de subsídio-dependentes”, diz o candidato. A comitiva afasta-se e ouve-se ao longe: “Racistas! Racistas!”

O candidato à junta do Parque das Nações, Rui Campos Silva, que militou no CDS durante 22 anos, rejeita o rótulo. “Até hoje não conheci um racista no partido e ninguém com inclinações fascistas.” Ainda assim, admite que é a percepção pública do Chega que vai ser posta à prova no domingo: “A resposta dos portugueses a votar é que nos vai dizer se estamos no caminho que agrada aos portugueses.”