Fado Madrid 2021 celebra Lisboa com Carminho, Camané e Mário Laginha e Teresinha Landeiro

A 11.ª edição do Festival Fado Madrid tem como tema Lisboa e junta no palco do Teatro Real, no dia 17 de Outubro, fadistas de três gerações: Camané (com Mário Laginha), Carminho e Teresinha Landeiro.

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Camané com Mário Laginha, Carminho e Teresinha Landeiro KENTON THATCHER/LEO AVERSA/GONÇALO F SANTOS

O programa foi anunciado esta quinta-feira na Mesa de Frades: a edição de 2021 do Festival Fado Madrid tem por tema Lisboa e a “embaixada” fadista à capital espanhola é composta por Teresinha Landeiro, Camané (com Mário Laginha) e Carminho, que actuarão no Teatro Real, no dia 17 de Outubro, pelas 17h30, 19h e 21h30. Antes, como é hábito no festival, haverá uma exposição, Lisboa y el Fado (às 10h), e uma conferência com o mesmo nome (às 11h), na qual participam Maria de Lurdes Vale e Ivan Dias, cujo filme Carlos do Carmo - Um Homem no Mundo será ali exibido às 15h30. A antecedê-lo (12h), estará Lisbon Story, de Wim Wenders.

Criado em Madrid, em 2011, o festival foi-se alargando a outras cidades espanholas e também pelo mundo, somando em 2020 – segundo a organização – um total de 16 cidades em 12 países: Madrid, Barcelona, Sevilha, Buenos Aires, Bogotá, Lima, Santiago do Chile, Rio de Janeiro, São Paulo, Cidade de Panamá, Quito, Rabat, Casablanca, Xangai, México e Maputo. No mesmo período, e ao longo de dez edições, realizaram-se 130 concertos, 83 conferências, 31 exposições e 98 projecções de filmes, registando-se um total de 246.698 espectadores.

Os três nomes que integram o cartaz deste ano já participaram em edições anteriores, Carminho em sete (entrou logo na primeira, em 2011), Camané em cinco (a partir de 2013) e Teresinha Landeiro em duas, nas de 2018 e 2019, mas noutros palcos que não o de Madrid. Os álbuns mais recentes servirão de mote aos espectáculos, mas associados ao mote “Lisboa”. Carminho, que em 2018 lançou Maria, acha que o tema “Lisboa”, embora tenha sido muito cantado (e até há uma Maria Lisboa, de David Mourão-Ferreira e Alain Oulman, cantada por Amália), “tem muitas nuances, porque há a personificação de Lisboa como uma mulher que tem os bairros aos seus pés, essa força feminina, e eu tentei canalizar a minha abordagem nesse sentido. Em vez de ser só o disco Maria, há Lisboas que me dizem qualquer coisa e vão estar presentes.”

No caso de Teresinha Landeiro, embora Lisboa não esteja muito presente no seu segundo disco (Agora, 2021), a cidade está desde sempre ligada ao seu canto. “Canto marchas populares, que retratam muito Lisboa, e no meu primeiro álbum, Namoro, eu canto três amores da minha vida: pelo fado, por Lisboa e o amor que se tem por outra pessoa. É um tema que me é bastante querido, embora eu seja de Azeitão, mas apaixonei-me por Lisboa, moro cá e é como se fosse a minha cidade. Tem uma luz muito especial e é sempre inspirador cantar sobre Lisboa.”

Camané, que em 2019 lançou um álbum em parceria com o pianista e compositor Mário Laginha, Aqui Está-se Sossegado, sublinha a ligação ancestral entre Lisboa e o fado: “Claro que o fado vem de muito lado, há muitas inspirações que levaram à criação desta música, mas ele nasce em Lisboa. Basta cantar o Fado Cravo, o Fado Mouraria ou A Casa da Mariquinhas (que nós gravámos) para ser Lisboa. A característica do canto, a forma como o Mário também entrou nesta música, tudo isto é fado. E não é preciso referir sempre Lisboa para ser Lisboa.”

Quanto à relação entre Espanha e o fado, Carminho nota o seguinte: “Apesar de estarmos um bocadinho distantes e conhecermos relativamente mal ambas as culturas (conhecemos melhor a espanhola do que eles a nossa), a forma como o fado é expresso e cantado vai ao encontro da maneira que eles têm de sentir.” E não é só o público que está nas salas: “Tenho a experiência da forma efusiva como, por exemplo, um jornalista nos faz entrevistas, da forma como sou recebida na rádio, na televisão. São muito interessados. Vou fazer agora dois dias de imprensa em Madrid, e conseguem ser maiores do que os que tenho cá quando lanço um disco.”

Camané tem idêntica experiência. “A relação tem sido óptima, já noutros festivais para além de Madrid, também em Bilbau ou Barcelona. Lembro-me de ir lá de propósito só para entrevistas. Acho que isso se deve ao facto de eles quererem promover os espectáculos e não conhecerem tanto da nossa cultura, mas a reacção deles é mais efusiva, é diferente.” Mário Laginha, por seu turno, recorda que “há vários pontos em comum entre o flamenco e o fado, apesar de achar que são músicas bastante diferentes”: “Num e noutro, os músicos sentem-se identificados com a sua alma. Eles fazem isso a cantar flamenco, que a deles, e cá faz-se a cantar o fado, que é a nossa. E isso é semelhante, essa identificação e entrega que os cantores estão a ter no momento.”

Teresinha Landeiro já cantou em Espanha, embora em Madrid seja uma estreia: “Achei muito interessante a maneira como os espanhóis nos recebem, mas o que achei mais curioso foi a vontade de conhecer, no final. Querem saber quem é o artista, conversar um bocadinho. Até saber o que diz esta ou aquela letra. A minha expectativa para Madrid é muito elevada, porque acho que é um público muito caloroso. São muito parecidos connosco na emoção, creio eu.”