Eleições na Rússia: Alexey Navalny foi a votos?

É de admitir que, na melhor das hipóteses, os votos dos apoiantes de Navalny tenham tido um peso não superior a 3,5% no crescimento comunista, o que não diverge muito dos 3% de taxa de aprovação popular que o activista tem nas sondagens.

As eleições realizadas entre os dias 17 e 19 de Setembro para a Duma (câmara baixa) da Rússia confirmaram, no geral, as projecções que aqui apresentei no mês passado: o partido Rússia Unida, de Vladimir Putin, perdeu 19 mandatos, o Partido Comunista aumentou significativamente a sua representação parlamentar, conquistando mais 15 assentos, e uma nova força política entrou no Parlamento, o partido “Novas Pessoas”, com 13 deputados.

Estas eleições ficam marcadas por vários incidentes durante os dias de votação. O mais significativo foi o bloqueio das aplicações de “votação inteligente” utilizadas pela oposição, através da App Store e GooglePlay, bem como de grupos criados no Telegram com a mesma finalidade. As aplicações estiveram disponíveis até ao último dia de campanha, mas foram retiradas nos dias de votação para impedir o que foi interpretado pelas autoridades russas como “ingerência” que favorece o apelo ao voto na oposição num período em que já não seria possível.

A exemplo do verificado noutros actos eleitorais, manteve-se uma preocupante tendência de registo de acontecimentos anómalos que colocam em causa a credibilidade do sistema eleitoral e até a maturidade do eleitorado russo: ao longo dos dias de exercício do voto, multiplicaram-se as denúncias de possível fraude em assembleias por todo o país. De facto, vários vídeos mostram o preenchimento de boletins de voto por elementos das mesas de voto, também a circulação e abertura de urnas no exterior, a exibição de detenções realizadas pela polícia por tentativa de fraude em flagrante, a sugestão de que houve elementos a cometerem fraude em nome de adversários para que uma possível vitória sua fique manchada e ainda denúncias de depósitos de mais do que um boletim de voto por eleitor, mesmo em círculos eleitorais onde cada eleitor podia votar simultaneamente em eleições para outros órgãos além da Duma.

Naturalmente, desconhece-se a verosimilhança e a autoria de cada uma dessas denúncias, pelo que não é possível perceber com clareza a pretensão de cada um dos envolvidos (quem filma e divulga e quem é filmado). Todavia, a verdade é que, em 2016, o Tribunal Constitucional russo anulou os resultados de algumas assembleias de voto por anomalias no processo de votação e as forças de segurança efectuaram várias detenções de pessoas por tentativa de fraude.

Além disto, na noite eleitoral surgiram inúmeras denúncias nas redes sociais com base na percepção ou no defraudamento de expectativas que alguns russos tinham. O Partido Comunista recusou reconhecer os resultados de Moscovo, alguns eleitores lançaram suspeitas (sem base concreta) sobre resultados expressivos obtidos por alguns candidatos – como a vitória de Ramzan Kadyrov, na Chechénia, com mais de 98% dos votos – e outros questionam derrotas de determinados candidatos.

O caso de maior relevo é o da derrota do comunista Nikolai Bondarenko num círculo eleitoral por natureza favorável ao Rússia Unida. É de realçar, porém, que Bondarenko simboliza a renovação do Partido Comunista, tem projecção nos meios digitais e é, de acordo com as sondagens nacionais, a oitava personalidade política com maior aprovação popular ao nível nacional, praticamente com os mesmos números do líder do seu partido, Gennady Zyuganov. Num momento em que Bondarenko tem sido empurrado pela opinião pública para a liderança de um Partido Comunista russo que não consegue descolar e modernizar a sua mensagem, esta derrota num dos círculos uninominais da sua terra Natal (Saratov) favorece a continuação de Zyuganov.

Esta derrota pontual não abala, contudo, o resultado extremamente positivo do Partido Comunista. Na verdade, apesar de assegurar a vitória e a maioria de dois terços na Duma, não deixa de ser assinalável o Rússia Unida continua a registar uma tendência de perda de apoio popular, já que, face às últimas eleições, perdeu 800 mil votos, enquanto os comunistas conquistaram mais 3,5 milhões de votos e impuseram-se como maioria em várias regiões russas.

Sucede, porém, que continua a ser difícil determinar o valor eleitoral concreto de Alexey Navalny. Com efeito, há vários meses que Navalny e os seus apoiantes insistem em apelar aos eleitores para seguirem a “votação inteligente” e votarem nos candidatos comunistas onde estes tivessem maior probabilidade de vencer o Rússia Unida. Em 2016, o Partido Comunista obteve 13,34% dos votos, em 2021, a maioria das sondagens apontavam para um aumento de 2% a 3% e o partido acabou com 18,93%. Portanto, por um lado, é de admitir que, na melhor das hipóteses, os votos dos apoiantes de Navalny tenham tido um peso não superior a 3,5% no crescimento comunista, o que não diverge muito dos 3% de taxa de aprovação popular que o activista tem nas sondagens.

Por outro lado, sugerir o voto numa solução de recurso não tem o mesmo impacto e aceitação de votar directamente no candidato pretendido. Contudo, Alexey Navalny arriscou – ao contrário do que outros opositores fizeram no passado no sentido de apelarem à abstenção para desacreditar os resultados e isolar o Rússia Unida – e acabou por, indirectamente, ir a votos graças ao seu apelo incansável, desde há vários meses, na “votação inteligente”, facto que tem sido utilizado por vários simpatizantes do Rússia Unida como uma validação da legitimidade dos vencedores e uma evidência de que o sistema é transparente, já que se Navalny incentiva ao voto num candidato, está disposto a aceitar o resultado final, quer ganhe, quer perca, pelo que tentou participar no jogo sabendo de antemão as regras e forma de funcionamento deste e aceitou-os como válidos.

No final, é possível concluir que o Rússia Unida vai perdendo força e esta tendência de queda dificilmente será amparada se o Governo e a Duma forem incapazes de dinamizar a economia nacional. A agenda conservadora, nacionalista e de participação do Estado na economia atestam, juntamente com o facto de o Partido Comunista ser o segundo mais popular da Rússia, que os russos tendem a rejeitar ideais liberais ou libertários ocidentais – perfilhados por Navalny. Na verdade, assiste-se mesmo a um crescente saudosismo por parte dos russos para com os tempos da era soviética, expressando-se estes nas redes sociais e mesmo em conversas informais no sentido de terem sido tempos marcados por algumas dificuldades, mas em que o Estado não deixava faltar nada à população e a Rússia assumia-se como um verdadeiro império com projecção global.

Não será, por isso, coincidência, que todos estes eventos aconteçam num momento em que uma recente sondagem conduzida pelo Levada Center apurou que 49% dos inquiridos sustenta que o sistema soviético é o melhor e apenas 18% entendem o actual como ideal e só 16% se revêem no ocidental. Portanto, mais um claro sinal de que o Rússia Unida dificilmente abandonará a linha de intervenção do Estado junto da sociedade e da economia e insistirá em vincar as diferenças face ao Ocidente. De igual modo, urge a Vladimir Putin começar, finalmente, a preparar aquele (ou aquela) que terá a ingrata tarefa de lhe suceder e evitar o vazio carismático que favoreça divisões internas, mas isso deixo para uma próxima análise.