Cartas ao director

Para lá da (in)coerência

As famosas declarações de António Costa, primeiro-ministro em funções, sobre a lição exemplar a dar a uma empresa em que por acaso o Estado também é accionista, vão ficar tristemente famosas. Famosas pela falta de coerência face ao que antes tinha afirmado sobre o mesmo tema e famosas pelo grosseiro oportunismo de o dizer em campanha eleitoral… autárquica.

Mas, para lá dessas tristes constatações, há um problema de fundo ainda maior. Uma empresa, num Estado sério, tem legislação a cumprir e, se não o fizer, há policias e tribunais. O Governo tem outras funções e outras prioridades. Se querem tutelar quase discricionariamente a economia e castigar quem falha ao beija-mão, exemplos por este mundo fora não faltam. Infelizmente em países que não nos deveriam servir de modelo, nem onde se gera riqueza e bem-estar para os seus cidadãos.

Carlos J F Sampaio, Esposende

Cinismo

Face à necessidade de manter a autarquia de Matosinhos, a todo o custo, na órbita do PS, o seu secretário-geral disse que a Galp ali instalada “tem de levar uma lição"(!), sobre as largas dezenas de despedimentos aí  concretizados. (Também já fui despedido, assim, sendo um sofrimento atroz...). No passado recente, António Costa, nada fez, e teve oportunidade de o ter feito no mês de Maio quando abordou este delicado assunto... agora vertendo  lágrimas de crocodilo e com exponenciado  cinismo, toma as dores e "o” lado dos  despedidos.

Claro que não se livrou dum coro de críticas, justas, da esquerda à direita, passando pelos trabalhadores que ficaram ostensivamente para trás e foram descartados. A overdose de cinismo mata a aspiração de ganhar a autarquia de Matosinhos.

A diferença entre Costa e Passos está no rótulo da mesma fraca farinha...

Vítor Colaço Santos, São João das Lampas

A honra perdida de Raquel Varela

A retirada do apoio do Instituto de História Contemporânea da FCSH à candidatura da investigadora Raquel Varela ao Concurso de Estímulo ao Emprego Científico Individual promovido pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, devido à existência de “erros” no seu currículo que faziam aumentar a contabilidade da produção científica (PÚBLICO, 20/9/2021), sugere o desrespeito desta investigadora pelos valores e normas de conduta que devem reger os docentes e investigadores da Universidade Nova de Lisboa, contemplados no seu Código de Ética. Também a sua exposição pública como tudóloga televisiva sobre a Covid-19, onde tem propagandeado a desinformação das redes sociais negacionistas, é contrária aos padrões éticos que devem nortear a divulgação da ciência.

As Comissões de Ética das Universidades devem estar atentas a este tipo de conduta dos seus docentes e investigadores, que dá uma imagem muito pouco abonatória para o prestígio da Academia.

Pedro Abreu, Lisboa

O prestígio desprestigiante

Talvez por ignorância, a maioria dos juízes do Tribunal Constitucional deu parecer negativo à sua transferência para Coimbra, num esboço de alguma descentralização. Seria “desprestigiante” para a instituição. Depois, emendaram dizendo que o desprestígio não era por ser Coimbra mas por sair de Lisboa. Como se não houvesse exemplos disso na Europa, e não fossem sinal de maturidade institucional e política. Em suma, Coimbra é boa para ter no Instituto Pedro Nunes a melhor incubadora de empresas do mundo e inúmeras empresas de ponta. É boa para ter, por exemplo, uma Critical, que trabalha para a NASA, para a Agência Espacial Europeia, para a BMW, etc. mas não pode ter o Tribunal Constitucional nem o Supremo Tribunal Administrativo.

É claro que o PS, que sabe ter em Coimbra uma coutada reverente e obrigada, absteve-se, com as habituais explicações palavrosas e hipócritas. Era melhor que assumissem que, para eles, todo o resto do país, por muitos pergaminhos que tenha e moderno que seja, é desprezível. Será que, como já alguém disse, o Tribunal Constitucional se sente mais dignamente instalado no Bairro Alto que junto aos Antigos Paços dos reis de Portugal? Uma capital que está sempre contra o resto do país, que o suga e a toda a hora o desconsidera, não o merece.

João Boavida, Coimbra