As meninas afegãs que jogam futebol estão em Portugal e querem conhecer Ronaldo

Deixaram tudo para trás no país agora controlado pelos talibãs sem saberem qual era o destino, mas com o desejo de continuar a fazer aquilo que o novo governo do Afeganistão não as deixa fazer.

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Jogadoras afegãs e suas famílias quando ainda estavam em trânsito, no Paquistão

Não havia muito tempo, apenas uma janela de três horas para tudo acontecer. No domingo passado, 80 pessoas, incluindo 26 raparigas entre os 14 e os 16 anos que jogavam nas selecções de futebol do Afeganistão, receberam pela manhã a notícia de que estava tudo a postos para as levar de Cabul. Mais 80 entre os milhares de refugiados que têm abandonado a capital afegã desde que o regresso dos talibãs ao poder passou a ser uma certeza. Quando as jovens futebolistas afegãs e respectivas famílias embarcaram, não sabiam qual era o destino. Ao final desse domingo, estavam em Portugal, um país que compreende e abraça a paixão pelo futebol.

Já se sabia que as jovens futebolistas tinham aterrado em Lisboa, um anúncio que foi feito na segunda-feira pelo governo português, referindo que este grupo de refugiados elevava para 178 o número de afegãos que chegaram ao país. Nesta quarta-feira, a agência Associated Press (AP) deu mais detalhes como decorreu a operação de resgate destas famílias, a começar pelo nome, “Operação Bolas de Futebol”, um esforço conjunto entre vários organismos internacionais e que foi sofrendo vários contratempos ao longo das últimas semanas.

Diz a AP que as raparigas e as suas famílias estavam a tentar sair do Afeganistão desde que os EUA retiraram o seu contingente militar do território, por receio do que lhes podia acontecer num regime que proíbe as mulheres de praticarem desporto. Depois de muitos contratempos, incluindo tentativas falhadas de resgate e um atentado no aeroporto de Cabul, e semanas em que tiveram de mudar várias vezes de casa por razões de segurança, estas famílias tiveram uma janela de oportunidade no último domingo.

E Portugal surgiu como destino destas jovens futebolistas. “O mundo uniu-se para ajudar estas raparigas e as suas famílias. Estas raparigas são um símbolo de luz para o mundo e para a humanidade”, disse à AP Robert McCreary, que esteve na Casa Branca durante a presidência de George W. Bush e que liderou a operação de resgate destas famílias.

À distância, a partir do Canadá, Farkhunda Muhtaj, capitã da selecção afegã de futebol feminino, foi acompanhando a operação e, em especial, foi fazendo o que podia pela saúde mental das jovens jogadoras. “Saíram das suas casas e deixaram tudo para trás. O estado mental delas estava a deteriorar-se. Muitas tinham saudades de casa e dos amigos em Kabul. Mas tinham uma fé incondicional. Conseguimos reavivar-lhes o espírito”, contou Muhtaj.

A AP falou com várias destas raparigas, que querem continuar a jogar futebol em Portugal, para além de quererem conhecer pessoalmente Cristiano Ronaldo, o capitão da selecção portuguesa que representa actualmente o Manchester United.

O comunicado de segunda-feira passada diz que estas famílias irão ser distribuídas por várias regiões do país. Nesta quarta-feira, o PÚBLICO contactou várias entidades públicas sobre como irá decorrer a integração destas famílias em Portugal e em que condições irão estas raparigas continuar a jogar futebol, mas não obteve, para já, qualquer resposta. O único dado que foi possível confirmar foi que haverá o envolvimento da Federação Portuguesa de Futebol.