Covid-19: Fernando Nobre alvo de processo disciplinar da Ordem dos Médicos

Em causa estão declarações do fundador e presidente da AMI durante a manifestação negacionista que aconteceu no dia 11 de Setembro em Lisboa.

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O médico Fernando Nobre Nuno Ferreira Santos

A Ordem dos Médicos (OM) abriu um processo disciplinar contra o médico Fernando Nobre, confirmou esta terça-feira ao PÚBLICO o Conselho Regional do Sul da OM.

O processo aberto pelo Conselho Disciplinar Regional do Sul surge na sequência das declarações do fundador e presidente da Assistência Médica Internacional (AMI) durante a manifestação negacionista em frente à Assembleia da República de 11 de Setembro – horas depois de um grupo participante no protesto ter insultado e ameaçado o Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, durante um almoço com a mulher.

Ao PÚBLICO, o Conselho Regional do Sul confirmou que recebeu várias queixas contra Fernando Nobre a propósito do seu discurso na manifestação, durante o qual declarou opor-se à vacinação contra a covid-19 e pôs em causa os testes de detecção do SARS-CoV-2, assim como a gravidade da doença. O médico é também contra a utilização de máscara e disse ter-se curado, quando esteve infectado, com fármacos cuja eficácia não está comprovada – entre os quais a hidroxicloriquina.

O ex-candidato à Presidência da República vai ser notificado, sendo que “a tramitação fica reservada a partir deste momento”, afirmou a fonte do Conselho Regional do Sul da OM. A partir do momento em que for notificado, Fernando Nobre terá 15 dias úteis para responder ao Conselho Disciplinar Regional do Sul, de acordo com a presidente, Maria do Céu Machado.

Não respondendo, o médico é notificado uma segunda vez e tem então um prazo de sete dias úteis para fazer chegar à OM uma resposta a ter em conta na decisão final discutida em plenário pelo conselho disciplinar. Segundo o regulamento da Ordem dos Médicos, todos os médicos são obrigados a responder ao organismo, pelo que “se um médico não responder, isso é considerado uma agravante”, explicou a presidente.

Francisco George desafia Fernando Nobre para um debate sobre a vacina

Perante as posições assumidas por Fernando Nobre, o ex-director-geral da Saúde Francisco George desafiou esta terça-feira o presidente da AMI para um debate sobre a vacina contra a covid-19.

Para Francisco George, a posição de Fernando Nobre “é absolutamente intolerável”, considerando que reflecte “atitudes incompreensíveis que um médico não pode ter”.

“Recentemente vi circular nas redes [sociais] uma alocução do presidente da (organização não-governamental) AMI (Assistência Médica Internacional), Fernando Nobre, que diz ser médico e que está absolutamente contra as vacinas, num tom que um médico não pode adoptar”, afirmou o especialista de Saúde Pública, em declarações à agência Lusa.

Francisco George disse que Fernando Nobre “não fala em vacinação, fala em injecção, diz que não aceita que a neta seja injectada, não aceita que os filhos sejam injectados, não aceita que os portugueses sejam injectados”. Para o presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, Fernando Nobre não tem razão: “Se tivesse razão ainda estaríamos no tempo da varíola, das grandes epidemias de varíola”.

Francisco George criticou o fundador da AMI por veicular “informações transmitidas publicamente de uma forma enganadora”. Perante esta situação, avançou que gostaria de convidar Fernando Nobre para um debate, comentando que não sabe se “ele tem noções de Medicina, de Biologia, de Epidemiologia, de doenças infecciosas” ao querer impedir, “como ele diz”, ‘injectar os portugueses’.

Notícia actualizada às 21h50 com as declarações de Francisco George