Cartas ao director

O combate dos chefes

A campanha eleitoral em curso faz, com efeito, lembrar a saborosa história de Astérix. Os chefes dos partidos digladiam-se por todo o lado, usando argumentos de política geral, e inutilizando assim o carácter local das escolhas que os portugueses devem fazer no próximo domingo. Nenhum está inocente - a começar, é claro, pelo primeiro-ministro. Em muitos casos, as acções de campanha deixam completamente na sombra os verdadeiros candidatos, que nem aparecem nas imagens ou nos relatos da imprensa. Ora sucede que as eleições locais têm, para as pessoas, o especial interesse da proximidade - e a vantagem de, por momentos, se tratar de coisas concretas que estão à vista de todos. Esses benefícios perdem-se todos quando a campanha se centra na “bazuca” (horrenda metáfora que se agarrou à nossa pele) e nas verdadeiras ou falsas promessas feitas à sua sombra. A questão atinge foros de escândalo quando há candidatos cujo grande argumento é pertencerem ao partido do poder e, por conseguinte, “terem voz lá em cima”. Lamenta-se que mais uma oportunidade de exercício sério e saudável de democracia se perca no enredo tribal em que a política nacional mergulhou.

António Monteiro Fernandes

Coisa pública, coisa privada

A recente notícia do julgamento duns “senhores” administradores dos colégios GPS que se locupletaram com 30 milhões dos 300 com que o Estado contribuiu, em contrato de associação, para com aquele grupo de colégios privados, deu-me que pensar. Isto porque parece que o grande “nó jurídico”, quer para o Ministério Público (para acusar) quer para os advogados de defesa (para defender), é que o dinheiro quando passa das mãos do Estado para as dos privados, em subsídio, deixa de ser... público.

Lembrei-me de, aqui há uns anos, no primeiro hospital português com estatuto de “público com gestão empresarial” , onde exerci funções de director de serviço, a administração ter respondido ao provedor de Justiça - numa pergunta que este lhe fez acerca duma queixa minha por me terem imposto que designasse um pediatra do quadro médico para assistir a um parto privado - do seguinte modo: “....a grávida entra privada , mas o “produto” (!) é público...”.

A linha de pensamento, num vice-versa, é a mesma... perversa como convém.

Fernando Cardoso Rodrigues, Porto

O homem da bazuca

O homem da bazuca era eu. No primeiro dia que “alinhei” no mato calhou-me levar a bazuca. Nada de mais. Calhava sempre aos “maçaricos” e eu era maçarico. Era usada para destruir tudo o que apanhasse pela frente. Há muitos dias que tenho ouvido diariamente o dono da bazuca a gritar: “agora é que vai ser bom”

Ora, há muitos, muitos anos, quando eu andava na escola que ainda se chamava quarta classe, jogávamos à bola com bolas de trapo feitas das meias velhas que as nossas mães deixavam de usar. Um dia apareceu um “puto” finaço que trouxe para a escola uma bola de cauchu e prometeu jogarmos todos com a bola dele. Um luxo. Por ser o dono da bola foi ele que escolheu as equipas e só jogava quem ele queria.

Porém, quando a equipa dele começou a perder, agarrou na bola e foi-se embora. Fiquei-lhe cá com uma raiva. Porque é que eu me fui lembrar disto agora?

José Rebelo, Caparica

Plano Nacional de Desacorrentamento

O PAN rejeita que animais de companhia estejam mais de 12 horas desacompanhados. É uma ideia que não pode ser fiscalizada a coberto de um plano de desacorrentamento de animais de companhia. No entanto, mais vale estar em lei do que não haver legislação que defenda os amigos de quatro patas. Tenho um cão de raça beagle. É uma boa companhia, mas as despesas não são pequenas. Urge a criação do veterinário municipal. As clínicas veterinárias privadas não estão ao alcance da generalidade dos portadores de animais de companhia. Custa tomar conhecimento de tantos cães abandonados. Até cães de raça são deixados à sua sorte.

Ademar Costa, Póvoa de Varzim

A demagogia

A demagogia está com muita saída. Por todo o lado, ela caminha de mãos dadas ao sabor de quem mais convém ouvir o que quer que melhor lhe sirva, como calçar um par de sapatos, seja qual for o tamanho dos pés. Todo este momento demagógico pode ser aceite em democracia, a menos que a liberdade não seja beliscada por quem pensa fazer o que bem lhe apetece, sem se coibir de ir frontalmente contra a liberdade individual ou grupal da sociedade onde se insere.

Esta prosa vem a propósito daqueles concidadãos que, não querendo ser vacinados, queiram conviver com os demais vacinados, sem que estes lhes possam proibir tal coabitação.

José Amaral, Vila Nova de Gaia