Cancro de cabeça e pescoço: da prevenção à reabilitação

Os principais factores de risco são causados por substâncias que contactam com as mucosa, principalmente o tabaco que, associado ao álcool, aumenta exponencialmente o risco de contrair esta doença. Esta é a Semana Europeia de Luta Contra o Cancro de Cabeça e Pescoço.

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Usman Yousaf/Unsplash

Em Portugal, o cancro de cabeça e pescoço afecta, anualmente, cerca de 3000 pessoas e faz três vítimas mortais por dia. Sendo este um tipo de cancro que quase sempre apresenta sinais, é importante a sua detecção precoce, propiciando o tratamento local, em que a probabilidade de cura está entre os 80 e 90%.

Este tipo de cancro compreende os tumores localizados nas vias aéreo-digestivas, nomeadamente, na cavidade oral, oro, naso e hipofaringe, laringe, cavidade nasal e seios perinasais.

Naturalmente, os principais factores de risco são causados por substâncias que contactam com as mucosas destas zonas, principalmente o tabaco que, associado ao álcool, aumenta exponencialmente o risco de contrair esta doença.

Outro factor de risco importante, especificamente ligado ao cancro da orofaringe, é a infecção por papilomavírus humano (HPV), este é um vírus de transmissão sexual, pelo contacto de pele e mucosas. Embora em Portugal este factor de risco não assuma proporções semelhantes ao tabaco e álcool, a sua frequência tem vindo a aumentar.

Os sinais e os sintomas de alerta estão directamente relacionados com as zonas envolvidas, nomeadamente aftas e lesões brancas ou vermelhas na boca, dor de garganta, rouquidão, dificuldade em engolir, escorrência nasal (principalmente se unilateral e com sangue) ou nódulos ou massas do pescoço. Por serem sinais e sintomas comuns aos de outras condições menos graves, muitas vezes passam despercebidos. Contudo, é preciso estar atento à sua duração e sempre que atingirem ou ultrapassarem as três semanas é conveniente procurar um médico.

Por todo o mundo e também em Portugal, o cancro de cabeça e pescoço é habitualmente diagnosticado numa fase avançada, o que torna o tratamento curativo mais agressivo, deixa sequelas importantes e reduz a probabilidade de cura para cerca de 50%.

Por se localizar em áreas de grande exposição e associadas a funções vitais, como respirar, falar e deglutir, o cancro de cabeça e pescoço pode deixar marcas profundas nos seus sobreviventes. A traqueostomia é uma das consequências possíveis e faz com que os doentes tenham de adquirir novas estratégias de comunicação. Hoje em dia, já são vários os casos em que o doente consegue readquirir a fala com recurso a próteses fonatórias. Outra das consequências pode ser a necessidade de suporte para a alimentação, através de uma sonda. Esta situação pode ser temporária ou definitiva sendo que a terapia da fala assume um importante papel na reaprendizagem da deglutição, promovendo a alimentação pela boca. Para além destas sequelas, a perda de peso e o descondicionamento físico são também efeitos dos tratamentos.

Assim, é preciso ter em mente que a reabilitação é tão importante quanto o tratamento e este dimensão deve ser abordada desde uma fase precoce, ainda antes de se iniciar o percurso terapêutico.

Para além da cura ou controlo da doença, os sobreviventes de cancro de cabeça e pescoço almejam uma vida com qualidade. Uma actuação precoce ao nível das vertentes cognitiva, psicológica e social, para além da vertente física, é essencial para que os sobreviventes tenham uma vida de qualidade para além do cancro, a que não pode ser alheia a sua reintegração na sociedade e a adopção de estilos de vida saudáveis.