Partido de Putin perde apoio mas alcança maioria clara nas eleições

Para além da intensa repressão pré-eleitoral, opositores denunciam fraude generalizada durante os três dias de votação para as parlamentares russas. Urnas fecharam no domingo à noite.

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Os votos começaram a ser contados no domingo à noite Reuters/EVGENIA NOVOZHENINA

A vitória era mais do que esperada: o Rússia Unida, partido de Vladimir Putin, manteve a sua maioria parlamentar depois de umas eleições marcadas por forte repressão contra os seus críticos e por denúncias de fraude generalizada. Com 85% dos votos contados, esta segunda-feira, a Comissão Eleitoral Central atribui ao Rússia Unida quase 50% dos votos, tendo o rival mais votado, o Partido Comunista, habitualmente alinhado com o partido no poder, conseguido perto de 20%.

Trata-se obviamente de uma vitória clara, mas apesar da falta de transparência e da certeza de que estas não foram umas eleições realmente livres, o resultado assinala um decréscimo no apoio ao partido do Presidente – nas últimas parlamentares, em 2016, a formação de Putin ultrapassou os 54% dos votos.

O descontentamento crescente entre uma população a lidar com a crise económica, a resposta à pandemia e a repressão contra a oposição e a imprensa livre, para além das acusações de corrupção das elites feitas por Alexei Navalny, o opositor envenenado há um ano e preso desde Janeiro, chegou a manifestar-se em sondagens que davam ao Rússia Unida uns meros 30%, quase metade do que tivera em 2016.

“Um dia viveremos numa Rússia onde será possível votar em bons candidatos com plataformas políticas diferentes”, escreveu antes do encerramento das urnas Leonid Volkov, próximo de Navalny, na aplicação de mensagens Telegram.

A apatia reflecte-se na abstenção, com os números oficiais a darem conta de uma participação de 47%. “Não vejo nenhum motivo para votar”, comentou à Reuters Irina, uma cabeleireira de Moscovo. “De qualquer maneira, já foi tudo decidido.”

Mais de 108 milhões de russos puderam votar ao longo de três dias para renovar os 450 deputados da Duma (já dominada pelo Rússia Unido, que em 2016 elegera 335 deputados), a câmara baixa do parlamento russo, e eleger os governadores e as assembleias legislativas locais.

Sem a repressão pré-eleitoral, que proibiu o movimento de Navalny e impediu os seus aliados de se apresentarem a votos, o partido do líder russo teria tido um resultado bem pior, afirmam os críticos do Kremlin. Antes do voto, os opositores estavam preocupados com a falta de observadores internacionais – pela primeira vez desde 1993, a OSCE, Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, decidiu não enviar uma missão – e consideraram que a introdução de voto electrónico e a extensão das eleições por três dias eram novas manobras para dificultar o controlo da fraude e permitir a manipulação dos resultados.

Navalny apelara à estratégia do “voto útil”, pedindo aos russos que votassem em qualquer candidato que não o do partido de Putin, para tentar assim reduzir ao máximo a votação do Rússia Unida. Mas o regime conseguiu fazer remover das lojas virtuais uma aplicação desenvolvida pela oposição para procurar os candidatos com mais possibilidades, depois de ter suprimido nos motores de busca o termo “Vote Smart”. O resultado é que a verdadeira oposição foi em grande parte excluída da votação.

Para além dos ataques e da repressão aos opositores do Kremlin, “centenas de violações foram relatadas por observadores e eleitores” durante a votação, escreve o site russo de investigação independente Meduza. “Houve urnas enchidas de boletins, os funcionários expulsaram os observadores das assembleias de voto e os candidatos foram agredidos. Como de costume, a Comissão Eleitoral Central reconheceu apenas um punhado de irregularidades”, descreve.

Putin, que deverá comentar os resultados durante o dia, está no poder (como primeiro-ministro ou Presidente) desde 1999 e, aos 68 anos, permanece uma figura popular entre muitos russos. Por confirmar está ainda a sua intenção de se apresentar nas próximas presidenciais, em 2024.