“Eu não acredito nos números”

Os filósofos da Antiguidade falam muito de “espanto”. Não sei se o espanto clássico se encaixa aqui, mas digo-vos: foi um espanto com peso milenar que senti ao conversar com um candidato do Chega.

Houve tempos em que só à socapa é que ouvíamos coisas esquisitas como “eu não acredito nos números”. Agora é diferente. Na era pós-Donald Trump, tropeçamos em todo o tipo de negacionistas a cada esquina.

Eliseu Neves, técnico de gás e candidato do Chega à presidência da câmara de Cantanhede — 12 anos “líder da oposição” pelo PS na freguesia de Outil, 858 habitantes — não acredita nos números oficiais que põem Portugal em 4.º lugar no ranking Global Peace Index, um índice da “paz” que mede os países segundo os critérios de violência, segurança e instabilidade. Se a pergunta é quais são os países mais pacíficos?, os cálculos dizem que Portugal é o quarto mais pacífico do planeta. Este foi o ranking usado pelo primeiro-ministro António Costa há uns dias, no congresso do PS. O índice é feito pela revista The Economist, com várias universidades, tudo gente rigorosa e cautelosa. Outros rankings que somam criminalidade violenta, como assaltos e assassinos, e que usam critérios diferentes, também põem Portugal no topo. Está tudo bem e cor-de-rosa em Portugal? Vamos ser sérios: claro que não. Está mais seguro? Sim. Tudo se deve ao PS? Claro que não.

Isto serve para dizer que só é útil conversar sem palas partidárias. Não podemos citar a Economist e os rankings internacionais só quando nos convém. O que interessa é ver o que avança no país — e porquê — e o que não avança — e porquê também.

Regressemos ao candidato Neves, que após anos como político local a representar o PS, se inscreveu no Chega em Agosto de 2019, tinha o partido quatro meses (“soumilitante n.º 932, diz com orgulho). Pergunto porque é que mudou para o Chega. Resposta: “A minha mudança vai de encontro à conjuntura [sic] que o país atravessa e à forma como o PS nos tem governado”, diz com voz confiante. Deixei de me identificar com o PS nos tempos de José Sócrates. Andei uns tempos a pensar que isto ia melhorar, mas depois percebi que não. O país está a ser delapidado de dia para dia pelos políticos que nos governam.” É neste ponto que vale a pena reproduzir o breve diálogo que se seguiu. As respostas do candidato foram dadas de imediato, sem a mais ténue hesitação.

— Pode dar cinco exemplos daquilo a que chama “delapidação”?

— Carga de impostos; compadrio e favorecimentos; falta de justiça e corrupção; desinvestimento nas forças de segurança e a insegurança que o país está a atravessar.

— Porque é que fala de insegurança se, nos rankings internacionais, Portugal está no topo dos países mais seguros do mundo?

— As estatísticas valem o que valem, podemos adulterar os números. Somos um país tão pequeno e temos esta onda de assaltos, já reparou? Há um efeito de dominó, que nos leva a este estado de coisas.

— Está a dizer que as estatísticas oficiais são adulteradas?

— Eu não acredito nos números.

— Diz isso com base em quê?

— Por tudo o que vejo. Sou bombeiro voluntário há seis anos e assisto a muitas situações. Por exemplo: na violência doméstica, algumas mulheres e alguns homens — porque na violência doméstica também há homens vítimas — as pessoas não reportam porque têm medo, porque a justiça não funciona, porque a justiça não protege a vítima, pelo contrário: ainda expõe mais a vítima.

— Nesses seis anos como bombeiro, quantas vezes foi chamado a intervir em casos de violência doméstica?

— Fui chamado umas duas, três vezes.

Os filósofos da Antiguidade falam muito de espanto. Não sei se o espanto” clássico se encaixa aqui, receio que não. Mas posso dizer que senti um espanto com um peso de milénios ao ouvir esta resposta. O candidato do Chega diz que o Governo de Portugal falsifica as estatísticas oficiais e, como prova para essa acusação gravíssima, apresenta o facto de ter visto, em seis anos, em Cantanhede, dois ou três casos de violência doméstica. É extraordinário. Os números públicos mostram-nos que há, por ano, em Portugal, 8720 mulheres, 1841 crianças, 1627 homens e 1626 idosos vítimas de violência doméstica. Haverá mais — isto são só os casos reportados. Estes números dão uma média de 24 casos por dia de violência doméstica contra mulheres, cinco contra crianças, quatro contra homens e quatro contra idososEliseu Neves é vice-presidente da distrital de Coimbra do Chega e conselheiro nacional do partido. Num dicionário do novo populismo radical português, podia ser uma entrada na letra n”.