Associação apela a que plano para realojamento do bairro do Segundo Torrão seja feito com a comunidade

Ainda sem uma data conhecida para o início do realojamento, a associação Cova do Mar aproveita a campanha eleitoral para deixar um pedido a quem for eleito: a de que comece a ser desenvolvido um plano de realojamento “claro, antecipado, transparente, fidedigno e inclusivo” junto da população.

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As primeiras construções começaram a aparecer há mais de quatro décadas Nuno Ferreira Santos

É um dos maiores bairros precários do concelho de Almada, que ainda passa despercebido a quem segue pela Trafaria, a caminho das praias da Caparica, e que está apenas a uma ponte de distância de Lisboa. O bairro do Segundo Torrão começou a ser erguido há mais de 40 anos de forma clandestina. Primeiro por pescadores, depois por quem chegava das ex-colónias e ali acabou por se instalar em terrenos que pertencem à Administração do Porto de Lisboa e a privados. Hoje vivem em barracas transformadas em lares cerca de 2500 pessoas, nem sempre com acesso a água e luz. O realojamento é um cenário há muitos anos colocado, mas nunca arrancou, embora a Câmara de Almada tivesse já atirado o seu início para este ano – o que não aconteceu.

Num momento em que a habitação é tema central nas campanhas eleitorais de vários municípios da Grande Lisboa — Almada não é excepção —, a associação Cova do Mar, fundada há cinco anos para ocupar os tempos livres das crianças do bairro, aproveita o momento para deixar um pedido a quem for eleito: a de que comece a ser desenvolvido um plano de realojamento “claro, antecipado, transparente, fidedigno e inclusivo”. Por isso lança uma campanha sob o mote #EuEnvolvoTODOS, para apelar a que esse planeamento seja feito com o envolvimento de todas as famílias e instituições que actuam no terreno, que vivem na incerteza do que será o seu futuro. 

Em Outubro do ano passado, a vereadora da Habitação da Câmara de Almada, Teodolinda Silveira, estimou que o realojamento do bairro pudesse iniciar-se ainda este ano e que a solução não passaria pela construção de um novo bairro municipal, mas sim por realojamentos dispersos no território, que implicarão a construção de novas casas.

“Achávamos que poderíamos fugir a isso, porque estávamos convencidos que poderíamos encontrar uma resposta de casas no mercado e seria essa a nossa primeira opção. Mas percebemos que, com a quantidade de pessoas ainda nessa situação de extrema precariedade, não iríamos conseguir, pelo que vamos efectivamente construir, no âmbito da Estratégia Local de Habitação”, explicou a responsável em entrevista ao jornal Almadense.

No centro das preocupações da associação está o “desenraizamento pela perda das suas casas, das vizinhanças, das relações recíprocas que tecem uma rede de segurança ou de sobrevivência, de uma ou mais fontes de subsistência, por serem forçados a deixar a área onde tinham trabalho ou fontes de rendimento”. Por isso mesmo, propõe a realização de um estudo sociológico “que meça o impacto social que a deslocação forçada e respectivo realojamento tem nas famílias e nas ligações à comunidade, detectando e antecipando os maiores riscos”. 

“Os direitos humanos não têm zonas ilegais. Não se pode dissolver uma comunidade assim do nada”, diz ao PÚBLICO Alexandra Leal, antiga gestora financeira que fundou, juntamente com o avô José Gonzalez, a Associação Cova do Mar, em 2016, para criar campos de férias gratuitos. Nasceu depois a Fábrica dos Sonhos, um espaço para as crianças do bairro terem apoio ao estudo, fazerem os trabalhos de casa e passarem o tempo livre.

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A Fábrica dos Sonhos é uma espécie de ATL para as crianças do bairro Nuno Ferreira Santos

Para a associação que dirige, é preciso “analisar quem necessita de um realojamento agregado ou de realojamento desagregado”, “garantir que as minorias étnicas não são separadas nem discriminadas, mantendo o respeito às tradições e culturas”, “respeitar a miscigenação já existente na comunidade, mantendo os laços de harmonia entre si”, reintegrar “o comércio local (porque há quem tenha os seus trabalhos de subsistência e é necessário ter em consideração a sua reintegração económica)” e as “instituições que prestam apoio à comunidade, permitindo a continuidade do seu trabalho”.

As preocupações devem chegar até questões mais práticas como “assegurar que as famílias podem levar os seus animais de companhia para as suas habitações novas”, “garantir a protecção das colónias de gatos e cães que vivem na rua” e que sobrevivem porque são alimentados pela comunidade e iniciar “de imediato a esterilização e castração destas colónias, impedindo que se multipliquem exponencialmente entretanto”.