Tolerar, aculturar ou integrar

Quando se aceita uma cultura diferente da nossa em criança, dificilmente nos manifestamos seja de que forma for contra essa cultura quando somos adultos.

Foto
Reuters/STRINGER

Como é difícil compreendermos diferentes culturas! E ainda mais integrá-las!

Há uns dias assisti, num canal da televisão portuguesa, um pequeno vídeo chinês sobre uma actividade que está a ganhar cada vez mais adeptos entre os pais de rapazes com cerca de sete, oito anos, daquele país. O vídeo relata como os pais sentem que os seus filhos rapazes precisam de ser mais fortes do ponto de vista psicológico e fisicamente, chegando uma mãe a referir que o seu filho chora com muita frequência e que é mais fraco do que as meninas. A actividade a que estes rapazes são sujeitos são campos de uma semana, onde vestem uniforme do tipo militar, respondem em uníssono a perguntas de um adulto, fazem jogos de lutas e de superação física. Os adultos que parecem orientar este tipo de actividade vão dizendo coisas como ‘o homem é o pilar da casa’, ‘aqui, somos homens!’ e outras frases do género.

Para alguns, a primeira reacção a este vídeo é sorrir e ao mesmo tempo é ficar sem perceber o que se está a passar e se não será uma brincadeira. Depois perguntamos a nós próprios o que se está ali a passar. Qual é a necessidade que está ali a ser suprida? A necessidade de tornar os seus filhos mais duros, treiná-los para serem dominantes? O que pode fazer uma semana de treinamento no longo período de educação e formação das crianças?

A dificuldade que temos em integrar culturas diferentes e modos de educar que saiam dos nossos cânones, leva-nos a ficar desorientados e apenas a sorrir. Onde no século XXI, no Ocidente, se ensina que há géneros dominantes? Que precisamos de ser fortes, mais fortes do que os outros, ao ponto de existirem actividades especificas para isso? A noção de igualdade de género desenvolvida ao longo destes últimos tempos, orienta para que cada um encontre o seu lugar de bem-estar, plena performance e felicidade. O que será daqueles que não querem dominar? E daquelas que não querem ser dominadas? E com a globalidade e mobilidade no mundo, como podemos acolher e integrar estes princípios? Não falo de tolerar, mas de integrar e saber dar um lugar.

No momento actual, com a situação do Afeganistão, onde a preocupação com as mulheres e a educação das crianças está em cima da mesa, qual será o ponto de equilíbrio do entendimento? A solidariedade é um bem precioso e a interculturalidade é um instrumento de promoção da paz. Quando se aceita uma cultura diferente da nossa em criança, dificilmente nos manifestamos seja de que forma for contra essa cultura quando somos adultos. Ficam os amigos e lembramos com estima esse período de crescimento juntos. Com abertura de espírito conseguimos integrar os pontos de vista que não vão contra a dignidade humana e os direitos humanos. Que difícil é não julgar! Que difícil que é não cair na tentação de aculturar.

Em período de início de ano lectivo, onde vemos tantos programas institucionais muitíssimo válidos de recuperação das aprendizagens, depois destes dois anos de pandemia, onde globalmente vivemos em simultâneo as mesmas experiências, como podemos discernir o que realmente importa aprender? Mais do que a matemática e o português, o que veio mesmo à tona foram as desigualdades sociais e a diferença de oportunidades entre cidadãos do mundo e também do mesmo país.

Depois destas evidências terem sido expostas, estes planos de recuperação incluem estratégias sociais para que a educação possa, de verdade, ser considerada um elevador social? Aprender o que importa, será pois diferente para cada comunidade escolar, para cada família, para cada criança. E para atingir o ponto de chegada, cada um faz um caminho diferente, o seu caminho. Saber integrar a diferença e promover autonomia não se faz só porque sim. É preciso aprender a ser autónomo, saber como e com que recursos isso se consegue. Ninguém é autónomo estando por sua conta e risco. Isso é maldade e não promoção de desenvolvimento.

A integração de diferentes culturas é a libertação de quadros mentais preconcebidos, para ambos os lados.

A consideração das desigualdades sociais e económicas, seja das famílias ou dos professores, é o início da consciência do que a escola tem outras tarefas para além de ensinar matérias diversas. E se os planos de recuperação das aprendizagens são prioritários, não esqueçamos de integrar a componente de desenvolvimento pessoal, pois ninguém aprende se não for compreendido e aceite enquanto pessoa no seu contexto.