Miúdos atolados em actividades extracurriculares

Depois da escola o melhor é virem para casa brincar, até ao dia em que a vontade seja tão grande que tratem de ir, de vir, e de lutarem eles próprios pelo investimento feito.

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@designer.sandraf

Ana,

“Mãe, por favor desinstala-me da piscina!”, foi a resposta que uma amiga minha ouviu do filho quando se preparava para voltar a inscrevê-lo na natação. O pai é engenheiro informático e ele usou a linguagem certa para implorar que o escusassem daquela “seca” muito molhada, que detesta. Ri-me meia hora.

É claro que depende dos miúdos, e da vida dos pais — e aprender a nadar é mesmo fundamental! — , mas suspeito que muitas vezes atolamos as crianças de actividades extracurriculares, na ânsia de lhes dar “experiências”, de fortificar competências, até de lhes engrossar o futuro curriculum vitae, mas será que não se exagera? Que subjacente a este horário sobrecarregado, não está o nosso desconforto com aquilo a que chamamos “não fazer nada”? Ou será que o nosso cansaço já é tão extremo que preferimos, apesar de tudo, a correria de os levar aqui e ali, do que suportar as birras ou as discussões entre irmãos quando ficam ao fim do dia juntos em casa?

Cá por mim a tua avó-granny tinha razão quando se recusava a inscrever-me em qualquer actividade fora da escola, com o argumento de que só o faria quando eu fosse suficientemente autónoma para ir e vir sozinha.

Sabedoria de uma mãe de uma sétima filha?


Querida Mãe,

Ahahahah, adoro essa do “desinstala-me”, vou usá-la muito!

Há uns anos, uma mãe ligou-me a pedir que desse aulas de canto à filha. Começou por desculpar-se porque a filha estava sempre a saltar de actividades. Pareceu-me esperar que a assegurasse de que neste caso nunca tal aconteceria e que uma vez nas minhas aulas não desejaria outra coisa, e que ficou chocada quando me limitei a dizer que compreendia a filha, e que íamos vendo como tudo corria.

Desliguei com algum desconforto. Pareceria falta de profissionalismo o meu discurso? Quase como se não acreditasse na importância da continuidade das aulas ou, pior, da minha capacidade de manter o interesse da criança? Mas não era. O problema não estava em mim, mas em como avaliamos a relação dos miúdos com as actividades extracurriculares, e o que pretendemos delas — valorizamos acima de tudo a especialização, quando o mais natural do mundo é as crianças gostarem de experimentar muitas coisas diferentes. Premiamos o “aguenta, porque vai dar resultados”, esquecendo-nos de que durante a infância o mais importante é o processo.

Mãe, não se trata de deixar os miúdos mudar de ideias de cinco em cinco minutos, ou de não os ajudar a perceber que é preciso ultrapassar as fases mais chatas das aprendizagens para conseguirem chegar ao prazer, mas de equacionar que a) não é com certeza aos três, quatro, cinco, seis anos que faz sentido esse exercício de espera e b) qual é a nossa motivação para pressionar uma criança a continuar. É que se for a de enriquecer um CV ou perseguir sonhos antigos dos pais, então temos que estar dispostos a aceitar que (saudavelmente) nos resistam. Já se a ideia for que eles descubram e explorem coisas novas, pelas quais se possam vir a apaixonar, então podemos ser mais flexíveis e libertar-nos da ideia de que têm de ir, e que têm de obter determinados resultados.

É claro que isto não é simples porque as próprias actividades são feitas numa modalidade de “contratos a longo prazo”, o que nos leva a sentir “Bolas, já paguei a inscrição, já gastei 60€ em patins, 40€ em pontas, e 30 em maiôs... Não podes desistir!” Motivos muito válidos... para nós.

Pensando bem, provavelmente a avó tinha toda a razão, e depois da escola o melhor é virem para casa brincar, até ao dia em que a vontade seja tão grande que tratem de ir, de vir, e de lutarem eles próprios pelo investimento feito.


No Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, começaram a escrever-se diariamente, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Mas, passado o confinamento, perceberam que não queriam perder este canal de comunicação, na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram.

As autoras escrevem segundo o Acordo Ortográfico de 1990