Revelado um inédito de Tennessee Williams: um americano e uma Rosa em Roma

Escrito em 1952, The Summer Woman foi agora editado pela primeira vez na revista Strand. Nele, a relação de um académico americano com uma prostituta italiana serve de paralelo ao impacto da política internacional dos Estados Unidos no resto do mundo.

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Nascido em 1911 e falecido em 1983, Tennessee Williams é considerado, a par de Arthur Miller e Eugene O'Neill, um dos nomes maiores da dramaturgia americana Walter Albertin / wikicommons

Associamo-lo ao clima húmido, sufocante, do sul dos Estados Unidos e às suas especificidades culturais, a sua decadência e nostalgia pela grandeza perdida, grandeza construída com mil esqueletos no armário e outros mil bem visíveis perante todos. Era o cenário que alimentava peças como Gata em Telhado de Zinco Quente ou Um Eléctrico chamado Desejo. Mas Tennessee Williams, nome maior da dramaturgia americana e mundial do século passado, escreveu mais (é também autor de vários contos e de dois romances) e escreveu para além desses cenários. Eis o que se reconfirma quando, inesperadamente, somos presenteados com um conto inédito, saído da sua pena em 1952 e intitulado The Summer Woman [A Mulher de Verão]. Cenário: a Roma do pós-II Guerra Mundial.

Publicado esta semana na revista Strand, depois de descoberto nos arquivos de Tennessee Williams alojados na Biblioteca Houghton da Universidade de Harvard, traça, através da relação de um académico americano com a sua amante italiana (haviam-se conhecido enquanto ela se prostituía nas ruas de Roma), a desilusão e crescente hostilidade para com uma América inicialmente vista como libertadora, mas que, com o passar dos anos, se tornou, aos olhos dos locais, símbolo de novas guerras e de promessas não cumpridas. “Parecia-lhe a ele, em cada Verão, que os rostos severos mas gentis dos trabalhadores ao longo dos carris eram de cada vez um pouco mais severos, e um pouco menos gentis, do que da vez anterior”, reflecte o narrador (tradução nossa).

Em declarações ao Guardian, Andrew Gulli, editor da Strand, revista que em 2014 publicara já outro conto inédito de Williams, Crazy Night [Noite Louca] diz ser um mistério o que terá levado Williams a guardar na gaveta um conto em que, “com um par de pinceladas amplas”, o escritor consegue “evocar a beleza do país e a simpatia genuína do seu povo, enquanto traça habilmente paralelos óbvios entre a relação sazonal do protagonista americano com uma prostituta italiana e as conturbadas acções dos EUA no estrangeiro – ambas repletas de conflito, ressentimento e desilusão”. O protagonista do conto é um jovem responsável pelo departamento de Inglês de uma reputada universidade do sul dos Estados Unidos – o que não surpreende, dadas as raízes sulistas de Williams e a inspiração que tanto delas retirava para a sua escrita. O académico encontrará em Rosa, e no que ela representa de uma Itália boémia e sensual, o contraponto ideal, romantizado, para a sua vida americana cinzenta e reprimida.

Em declarações ao Washington Post, Robert Bray, director da Tennessee Williams Annual Review, aponta que a ligação do escritor a Itália se foi tornando cada vez mais íntima com o passar dos anos, dada a ascendência siciliana do seu companheiro, Frank Merlo, e da forte amizade que construiu com a actriz italiana Anna Magnini, protagonista da adaptação ao cinema da sua peça A Rosa Tatuada, filme onde também encontrávamos Burt Lancaster e que estreou em 1955 com realização de Daniel Mann.

Andrew Gulli nota que o conto é revelador de uma “dimensão” de Tennessee Williams pouco conhecida da maioria dos leitores. “Pensamos em Tennessee Williams como cronista do esplendor apagado, da angústia e da fraqueza, mas as suas viagens e interacções mostram-nos como era um observador versátil da forma como a política externa americana era vista à volta do mundo”.

The Summer Woman não foi o título original do conto agora revelado. Inicialmente, Tennessee Williams chamou-lhe The Marshall Plan, ou seja O Plano Marshall, alusão directa ao conjunto de medidas idealizado e posto em prática pelos Estados Unidos para apoiar a reconstrução de uma Europa que a guerra deixara em escombros.