Uma surpresa chamada Sheriff Tiraspol

Moldavos venceram o Shakhtar Donetsk na jornada inaugural do Grupo D e somaram os primeiros golos e pontos na história da Champions.

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Adama Traoré no lance do primeiro golo do Sheriff Reuters/GLEB GARANICH

Real Madrid ou Inter Milão na liderança, Shakthar Donetsk num eventual terceiro lugar e Sheriff Tiraspol numa quase inevitável última posição. À partida, terão sido estas as contas feitas na projecção do Grupo D da Liga dos Campeões. Mas os moldavos do Sheriff podem muito bem ter baralhado este exercício académico, graças a um surpreendente triunfo sobre o Shakhtar Donetsk (2-0), na jornada inaugural da prova, nesta quarta-feira.

Aconteça o que acontecer de agora em diante, esta já será uma edição histórica par ao Sheriff nas provas europeias. No play-off da Champions, já tinha derrotado o Dínamo Zagreb de forma concludente (3-0 e 0-0), garantindo um apuramento inédito para a fase de grupos - e fazendo da Moldávia o 34.º país a colocar uma equipa neste patamar. Agora, alcançou a primeira vitória entre a fina flor do futebol continente.

Em Tiraspol, perante 5205 espectadores no Sheriff Stadion, a equipa comandada pelo ucraniano Yuriy Vernydub, um técnico com um currículo modesto, montou um plano de jogo que concedia a iniciativa a um Shakthar claramente mais capaz e que apostava nas transições rápidas para tentar fazer mossa. Não é de estranhar, por isso, que os ucranianos tenham terminado a partida com 68% de posse de bola, 21 remates ou 17 pontapés de canto.

O Sheriff não se mostrou desconfortável com o controlo do adversário. Num 4x3x3 composto por jogadores de oito nacionalidades (e nenhum moldavo) e que contou como o peruano Dulanto (ex-Boavista) no eixo da defesa, a equipa anfitrião tirou o máximo rendimento das abordagens ofensivas que empreendeu e do último passe do lateral esquerdo Cristiano, providencial nos dois golos.

O primeiro surgiu ainda na primeira parte, aos 16’, da autoria de Adama Traoré. Não, não é o poderoso atacante que representa o Wolverhampton, mas também é extremo: nasceu no Mali, fez escola no futebol francês e foi contratado ao Metz no início do ano, por pouco mais de 200 mil euros. Na área, após excelente cruzamento de Cristiano, finalizou em vólei, de primeira, e fez o primeiro golo da história do Sheriff na fase de grupos da Champions.

O Shakhtar, cada vez mais descaracterizado depois das saídas de Paulo Fonseca e de Luís Castro, sentia dificuldades em romper o bloco defensivo contrário, um 4x5x1 em organização defensiva e bastante afundado no terreno. E apesar de ir acumulando remates e abordagens à baliza do grego Athanasiadis, nunca conseguiu encontrar a rota para o golo.

Na verdade, foi mesmo o Sheriff a replicar no segundo tempo parte da fórmula que resultou no golo inaugural. Cristiano, uma vez mais, acelerou pelo corredor esquerdo e desencantou uma segunda assistência, desta feita para o ponta-de-lança guineense Yansane, lançado em campo sete minutos antes.

Estava confirmada a surpresa e era necessário continuar a suster as investidas do Shakhtar, que nem com Marlos, Alan Patrick ou Mykhaylo Mudryk conseguiu mudar o rumo dos acontecimentos. A muralha moldava manteve-se intacta, de pé e só se desmontou para celebrar os primeiros três pontos na competição, passíveis de baralharem as contas de um grupo em que se arrisca a trocar o estatuto de patinho feio pelo de cisne improvável.