E depois de Deus

Donda é o prolongamento, potente e glorioso (não sem os seus momentos menos conseguidos, e são vários), de uma obra referencial, goste-se ou não, para toda a música popular deste século: a de Kanye West.

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Donda revalida o gesto rompedor e exuberante do músico americano Kevin Mazur/Getty Images for Universal Music Group

Alguém disse que, para se apreciar devidamente alguma coisa, é preciso esperar 50 anos. Ao anonimato do primeiro opõe-se um provecto poeta romano que, no seu tempo, se pronunciou nos seguintes termos: “Nada se assemelha a si próprio neste mundo em que nada é estável. De estável existe apenas a secreta violência que tudo subverte”. Um outro grande lírico, este lusitano, glosá-lo-ia em termos aproximados. Estavam todos longe de imaginar a ressonância que tais elucubrações poderiam ter, séculos depois, nos nossos dias. Por exemplo: a possibilidade de um álbum musical se constituir, em si mesmo, numa obra-em-mudança, gesto que, já visto nas artes plásticas do século XX, o passa a perspectivar como corpo instável, em permanente transformação. Não é, em rigor, algo novo no percurso de Kanye West, que, já em 2016, com The Life of Pablo deu início à ideia de um disco como objecto em perpétua (des)construção, metamorfoseando-se conforme o tempo, os humores, os dissabores (os arranjos, as vozes, os convidados, o número, título, duração e ordem dos temas, canções novas que entram e outras que são expelidas, etc.). A ideia de “experimentação” esticada a um novo patamar, o reconhecimento de um disco como projecto no tempo, inacabado — não por ainda não estar totalmente fechado, mas porque a intenção é a de que permaneça aberto (ou, até, que desapareça, para pensarmos em alguém como a dupla Christo e Jeanne-Claude). A imperfeição como inspiração e aspiração.