Ausência da esquerda deixa manifestações anti-Bolsonaro quase vazias

Organizações conservadoras queriam reunir todos os sectores políticos que se opõem ao actual Presidente numa resposta às acções do Dia da Independência, mas a esquerda não se quis associar.

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Manifestação na Avenida Paulista em que se vê um boneco insuflável que junta Lula e Bolsonaro Fernando Bizerra /EPA

O Brasil viveu mais um dia de manifestações este domingo, com a organização de marchas em 19 grandes cidades em protesto contra o Presidente Jair Bolsonaro. A intenção era concentrar os críticos do actual Governo, mas, com a generalidade da esquerda ausente, as ruas estiveram quase vazias.

A ideia dos organizadores do protesto deste domingo era dar nas ruas brasileiras uma resposta às manifestações do Dia da Independência, em que os apoiantes de Bolsonaro encheram as avenidas e praças das principais cidades do país, numa demonstração de lealdade para com o seu líder. As acções foram organizadas pelo Movimento Brasil Livre e o Vem Pra Rua, duas associações conservadoras que estiveram na linha da frente das mobilizações contra a ex-Presidente Dilma Rousseff e que chegaram a apoiar Bolsonaro numa fase inicial.

Embora o foco dos apelos à participação tenha sido a confluência de críticos do actual chefe de Estado, a esquerda, sobretudo o Partido dos Trabalhadores, rejeitou desfilar ao lado dos antigos adversários. Na Avenida Paulista, o principal barómetro das acções políticas no país, estiveram pouco mais de seis mil pessoas, de acordo com os números da polícia, muito abaixo dos 125 mil que dias antes ali tinham estado para apoiar Bolsonaro.

O Brasil atravessa um momento de grande instabilidade política e social, marcado pelo confronto institucional entre Bolsonaro e as restantes instituições, sobretudo o Supremo Tribunal Federal. Durante as manifestações do Dia da Independência, o Presidente atacou juízes e exigiu o seu afastamento por não concordar com as suas decisões, que diz serem motivadas para o enfraquecer politicamente. Dias depois, pressionado por vários flancos, Bolsonaro acabou por emitir um comunicado em que se demarcou das suas declarações e deixou apelos ao diálogo e à harmonia.

Na prática, as manifestações de domingo acabaram por representar apenas os defensores da chamada “terceira via”, que rejeitam tanto Bolsonaro como o ex-Presidente Lula da Silva, os dois virtuais candidatos que dividem o favoritismo para as eleições do próximo ano. Em São Paulo via-se, por exemplo, bonecos insufláveis de Lula com uniforme de presidiário.

As sondagens mostram pouca margem para que um candidato tenha condições para se intrometer na disputa entre os dois, especialmente porque ninguém parece reunir as condições ideais. Na Paulista, discursaram alguns deles, como o ex-candidato presidencial Ciro Gomes, o governador de São Paulo, João Doria ou o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

“Votarei na terceira via não importa o candidato, qualquer um que não seja Lula ou Bolsonaro”, disse ao El País Brasil a médica Denise, de São Paulo, que estava presente nas manifestações de domingo.

O aparente falhanço das manifestações deste domingo também prejudica as esperanças de quem defende uma “frente ampla” que reúna tanto a esquerda como a direita contra Bolsonaro, como forma de defesa das instituições democráticas. Este grupo considera que a ameaça representada pelo actual Presidente é tão elevada que requer uma unidade política de todos os sectores que não põem em causa o regime democrático.

Na Folha de S.Paulo, o jornalista Igor Gielow escrevia que para os defensores desta via “o caminho a percorrer ainda é bastante longo, para não dizer fechado”.