Os brincos

Uns despedem-se da vida felizes, cheios de histórias para contar, outros pensam que o dinheiro lhes dá garantias na grelha de partida.

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"Todos precisamos de ilusões" Mag Rodrigues

A mulher já era muito velha. Quando digo velha sei o que estou a dizer e não devemos temer a palavra, muito menos os adjectivos. Era velha com as rugas pregadas na cara, aquelas pregas enrugadas que nascem das fintas que a vida nos faz. Era velha e contava muitas histórias. Fumava enquanto desfiava memórias. O fumo enrolava-se à volta do pescoço dela como se fosse uma echarpe e quem a ouvia seguia com ela pela noite fora. No fim, ela dizia: “Agora vou dormir um bocadinho para acordar outra vez.” E os que ali tinham ficado arrumavam as cadeiras e saíam num burburinho que enchia a rua quando as ruas ainda estavam vazias.

Clareava a manhã e a voz dela calava-se. Passava a água morna de sempre pelo rosto e umas gotas de óleo que nunca ninguém percebeu bem o que seria. Era dela. Pertencia-lhe assim como as histórias que tinha vivido.

Dali a pouco tempo estaria acordada fazendo um café forte, puxando de um cigarro. Havia canários numa gaiola e um sofá de veludo onde as marcas do tempo se mostravam teimosas como na sua cara. Os canários cantavam e ela ia buscar um disco antigo. Sentava-se no sofá, muitas vezes de óculos escuros espreitando pela varanda que deixava ver a cidade onde o dia já há muito começara.

Arranjava-se mais tarde escolhendo uns brincos, uma pulseira do tempo em que as pôde comprar, desarrolhava depois a água-de-colónia que para ela ainda tinha cheiro. Saía apoiada num corrimão picotado pelo desgaste dos anos. Azulejos faltavam nas paredes como alguns dentes na sua boca. Nascemos por formar e também nos vamos embora em perda. Uns despedem-se da vida felizes, cheios de histórias para contar, outros pensam que o dinheiro lhes dá garantias na grelha de partida. Todos precisamos de ilusões. O dinheiro, esse que se acumula por ganância, é só uma delas.

Já na rua mantinha os óculos escuros mesmo que a noite os dispensasse e cumprimentava os vizinhos alegremente, muitos deles já em hora de fecho. Ela sorria e gostava de ir contra o relógio dos outros.

Todos os dias jantava no mesmo sítio. Nesse lugar onde coleccionou amigos depois da morte do último marido. Ia ali com ele e no dia a seguir ao funeral não ficou em casa: prometera-lhe que continuaria a vida tal e qual como a viveram ambos, com prazer. Nem nesse dia, o primeiro do luto, ficou sozinha: uns e outros foram chegando para ouvir a mulher que tinha uma echarpe de fumo à volta do pescoço e desenrolava histórias enfeitiçando os presentes.

Numa noite em que o serão continuou lá em casa, a mulher reparou que um rapaz mais novo, mas presença assídua dessas vigílias boémias, a olhava de forma diferente. Pensou ela que era estranho e que não podia ser. Que ele tinha 30 e poucos anos e que não podia vê-la como mulher. Que desejo cresceria entre duas idades tão distantes?

Quando mostrou o cansaço habitual (ela inventava o cansaço para que eles não ficassem ali para sempre), o rapaz tirou-lhe um dos brincos e pô-lo na mão dela. Depois disse-lhe muito baixinho: “Amanhã deixe-me ajudá-la com o par.”

Talvez ela não tenha dormido nessa manhã. Os canários cantavam alvoraçados ou então era o peito dela em desalinho. Não houve óleo, nem água morna, só café forte e um nervosismo que lhe vinha às mãos e as suava como se tivesse deixado de ser velha.

Quando chegou a hora de sair, escolheu os brincos mais bonitos e abriu um perfume diferente, oferenda de outros Natais, ainda por estrear.

As histórias, os copos e os cigarros foram os de sempre, mas nessa madrugada o cansaço veio mais cedo. Todos saíram tendo ela a certeza que o rapaz voltaria. E ela esperou rodopiando os brincos num sorriso sem idade, aquele que a paixão nos devolve.

Ele bateu à porta e ela abriu. Primeiro disse-lhe: “Já não tenho beleza p'ra te dar.” Depois deixou o rapaz entrar, ele tirou-lhe os brincos e respondeu: “A beleza sou eu que escolho como a quero ver.”

Todas as manhãs, os brincos repousavam na mesinha de cabeceira, enquanto os amantes sem idade se mantinham acordados para o tempo não acabar.