Carta de Chamada de um grupo invasor

A 12 de setembro de 1876, dá-se início à confluente política de expansionismo europeu, e à perseguição, seguida de violação e captura para escravatura, de milhões de mulheres negras.

I - Dos 145 anos da Conferência Internacional de Geografia

Foi a 12 de setembro de 1876 que o Rei Leopoldo II da Bélgica realizou, no Palácio Real de Bruxelas, a Conferência Internacional de Geografia, o primeiro passo em direção à concertação pela divisão e ocupação dos territórios coloniais.

São os reinos da Alemanha e da França quem convoca para Bruxelas, sobre os auspícios do monarca belga e deixando de parte Portugal, a reunião que iria i) abrir à “exploração científica” as partes desconhecidas de África; ii) facilitar a abertura de vias de modo “a penetrar a civilização no interior do continente africano” e iii) “procurar medidas para suprimir os maus tratos dos negros em África”. Pelo menos assim se apresentava o Rei Leopoldo II, como um abolicionista da escravatura que queria “levar a civilização à única parte do mundo que continuava impenetrável”, África.

Dominando os territórios da África Central que serviam para a aceleração da revolução industrial na Bélgica, Leopoldo II concluí a conferência a 19 do mesmo mês, com a criação da Associação Internacional Africana que viria a servir os propósitos do monarca de recuperar a bacia do Congo, que no século XV se converteu voluntariamente ao catolicismo por influência dos portugueses, estabelecendo o que viria a ser o Estado Livre do Congo.

Terminada a Conferência Internacional de Geografia, posicionam-se da seguinte forma três reinos: i) o de Inglaterra aliciando Portugal, colocado à margem da conferência, a apropriar-se da parte sul do estuário; ii) o de França, que dominava já a parte norte do estuário que era todo ele impenetrável devido à forte presença de cataratas, comprometendo-se com Leopoldo II a não intervir nas suas ambições de construção de uma estrada de ferro; iii) o Reino da Alemanha, representado pela Chanceler Bismark, que por Guilherme II vinha planeando a sua expansão pelos territórios africanos, jogando a cartada de reagendar para a Conferência de Berlim o reconhecimento oficial do Estado Livre do Congo.

E assim se dá início, a 12 de setembro de 1876, à confluente política de expansionismo europeu, à perseguição, seguida de violação e captura para escravatura, de milhões de mulheres negras que pela culpa que emanava (e emana) exclusivamente da cor da sua pele, se viram alvo dos mais macabros atos de perseguição, humilhação e terror, que se prolongam até aos dias hoje, com outras vestes, mas o mesmo ódio que nunca se viu ou sentiu obrigado a um pedido de desculpas.

II – Das Negras Mulheres Africanas ou da soma dos crimes da supremacia branca

À História das Mulheres Negras Africanas colam-se histórias de discriminação e assentam tecidos e ornamentos que estas foram aprendendo a vestir e a despir com notas de agradecimento. Nem existe outra forma, pois são incontáveis as vezes que nós, mulheres negras africanas, somos eleitas pelo bisturi da supremacia branca para mais um recorte cirúrgico, mais um ataque à honra, mais uma acusação leviana. Na multiplicação da tortura com o desprezo, restam-nos responder às infiltrações de lágrimas com notas de agradecimento “Onde quer que eu coloque as desculpas e assine culpas minhas?

Os estudos de géneros ilustram o modo como se entronizam as relações de poder. Assumimos que a História das Civilizações faz-se sobre a epístola de um poder patriarcal que legitima a submissão da mulher.

Da ainda por fazer História das Mulheres Negras em África discursa uma ancestralidade de género que é facilmente provada quer em vestígios documentais quer em heranças da oralidade que apontam para a existência de uma monarquia onde o poder era matriarcal. Esta raiz é ceifada à constituição das sociedades africanas pelas invasões europeias, pelas missões colonizadoras e pelas imposições da economia escrava que estão na origem da destruição do modelo de monarquia matriarcal. As leis europeias da supremacia branca introduziram nas relações de género a subordinação da mulher ao homem, moldura que não existia antes das invasões territoriais dos colonizadores e dos seus movimentos de captura para escravização.

A exemplo, o das mulheres Mucubal de Angola, representantes dos povos bantu meridionais que constituem um subgrupo do grupo étnico-linguístico Herero, povo que viajou para o Sudoeste de Angola vindos do Nordeste de África. Sob estes povos migrantes do Nordeste de África foi-lhes colocado o manto da cultura Camítica Oriental, isto é, a crença de que eram descendentes de Cam, filho de Noé salvo do Dilúvio pela Arca que Deus empreendeu. Cam é no livro de Génesis patriarca de uma importante dinastia que esteve na fundação de várias cidades da Antiguidade, como as de Cuxe, Mizraim, Pute e Canaã. O mais novo filho de Noé terá sido bravamente predestinado pelo seu pai, de quem da nudez não guardou reserva, a uma condenação que recairia em seu filho, Canaã, rogado a ser o servo dos servos: “E seja-lhes Canaã por servo”. Disto resulta que até ao século XIX sejam várias as referências a esta geração bíblica e à maldição de Cam como forma de legitimar o racismo e a escravatura.

Da América do Sul (Brasil), pelos missionários da Ordem de São Pedro João de Sousa Ferreira, chegam relatos da maldição de Cam: “Não há lei divina nem humana que proíba a possessão de escravos”; nos Estados Unidos da América e até ao século XIX os defensores da escravatura usaram a Bíblia e maldição de Cam para defender a eterna condição dos negros à escravatura; na Europa a exegese bíblica fez-se defendendo que Cam significaria etimologicamente “escuro”, “queimado”, exposto ao calor até ficar “torrado”.

Só no século XX, com os estudos de raça e religião do académico e erudito tradutor da bíblia a partir do hebraico, David M. Goldenberg, e através da análise linguística minuciosa empreendida por este, é que cai por terra qualquer relação etimológica que desse ao nome Cam o significado de escuro, queimado ou sujeito ao calor. Deve-se a obras como “Black and Slave: The Origins and History of the Curse of Ham”, GOLDENBERG, David M., in Studies of the Bible and Its Reception, ed. De Gruyter, Book 10, May 22, 2017, 369 pp ou “The Curse of Ham: Race and Slavery in Early Judaism, Christianity, and Islam”, GOLDENBERG, David M. in Jews, Christians, and Muslims from the Ancient to the Modern World, Book 19, Michael Cook, William Chester Jordan, and Peter Schäfer eds., Princeton University Press, Aug. 07, 2005, 472 pp e outros ensaios do autor a queda de toda uma teoria missionária que suportava e justificava a perseguição, captura e escravização dos negros. O impacto dos estudos de Goldenberg abalou o mais inquestionável e uno postulado epistemológico, o que se refere ao estudo do pensamento bíblico, que até então servia de justificação para a supremacia racial e consequente subjugação de uma etnia à outra.

Com David M. Goldenberg, a partir da Universidade de Pensilvânia, na cidade de Filadélfia, sob o Sino da Liberdade e o marco da Declaração da Independência dos Estados Unidos da América, às portas deste século XXI cai um dogma que ainda resistia a favor da supremacia branca, inicia-se uma dialética da qual irrompe a construção de um discurso étnico-racial que não corrobora com a supremacia branca, antes reclama a importância das vidas negras. Nos Estados Unidos da América dão-se os primeiros passos para os movimentos sociais recuperarem inspiração nos movimentos dos direitos civis do século XX, como os das feministas negras da década de 80, do pan-africanismo, do movimento anti-apartheid, das primeiras manifestações de finais dos anos 60 e da Rebelião Stonewall das comunidades Lésbica, Gay e Bissexual alargadas às comunidades Trans e Queer, até ao mais recente Occupy Wall Street para, da junção de todos estes movimentos sociais emergir algo maior, anti-estrutura e na origem do conceito de interseccional.

A queda da maldição de Cam permite o movimento Black Lives Matter e a sua urgência preme o derrube do argumento étnico-racial. Muito há ainda por fazer para este argumento jaze e para que a seu túmulo arraste outros argumentos como os de género, orientação sexual ou condição social. O homem novo é a humanidade intersecional que David M. Goldenberg libertou da Arca. Sobre Goldenberg escreveu Molly Levine, editora da colecção acima citada: “Jews, Christians, and Muslims from the ancient to the modern world”: “The often highly technical scholarship on every ancient source is deftly summarized and discussed with fullness, clarity, and integrity. Only then does the author lay out his own interpretation, which is invariably judicious and generally persuasive. Indeed, no small added value of Goldenberg's work is that in the process of learning about race and slavery in early Judaism, Christianity, and Islam, readers will also learn a great deal about the history of biblical exegesis from antiquity on.

Retorno ainda mais crente na recuperação da hegemonia e plena liberdade das mulheres Mucubal (também se pode identificar este subgrupo étnico-linguístico por Kuvale) da minha Angola para, do colo destas resistentes mulheres Herero (o grupo Herero tem vários subgrupos, os Kuvale ou Mucubal, os Himbas ou Muhimbas, os Namas, os Zembas, os Kwandus, os Tjavikwas, os Mbanderos, os Hacahonas) relembrar que com o seu povo iniciam, por volta de 1884, uma fuga dos invasores, colonizadores e escravocratas oriundos do Reino da Alemanha (os Imperadores alemães iniciaram o domínio colonial com a Conferência de Berlim de 15 de novembro de 1884 e abandonaram os territórios coloniais no segundo ano da I Guerra Mundial, 1915); estes obrigaram os povos Herero a abandonar os territórios onde estudos migratórios indicam estarem inicialmente localizadas - no Nordeste de África, mais particularmente nas terras que hoje pertencem geograficamente os países do Egito, Sudão, Sudão do Sul, Eritreia, Etiópia e Quénia - até à zona Sudoeste de Angola – Huila e Namibe.

As línguas bantu em que se expressam os povos Herero é também reflexo das influências das línguas faladas pelas populações cuxíticas. Sim, essas mesmas que está a pensar, as dos povos oriundos do Reino de Cuxe, primeiro filho de Cam, neto de Noé, que reinou nos territórios da região Núbia, a que geograficamente correspondem os países do Egito, Sudão e Sudão Sul. Em fuga, as mulheres da minha terra tornaram-se altamente resistentes à captura procedida de escravatura, desenvolveram características físicas que se lhes reconhecem até hoje – mulheres esguias, altas e com pernas longas – e vestiram-se com adereços que até hoje refletem direta e indiretamente a resistência ao colonizador: as solteiras andam nuas da cintura para cima, com seios envoltos por colares ou pulseiras com esterco de boi (que mantinham o colonizador afastado) e as casadas e mães amarram os seios com tiras finas de couro de boi até os espalmarem.

Como afirmei, está por fazer a História das Mulheres Negras de África. Quando a academia o empreender não deixará para trás o paralelo estudo antropológico dos trajes e ornamentos culturais das mulheres do referido continente. Nessa altura, será prova o espelhado nos ornamentos criados para afastar o colonizador do abuso a que os corpos expostos destas mulheres eram frequentemente alvo, recorrendo inclusive a esterco animal na tarefa de untar o cabelo. A tudo isto somam-se aspetos como o isolamento social a que se legaram, os mecanismos de endoculturação para preservação da sua identidade cultural, o nomadismo social e o isolamento cultural.

Ainda que inseridas numa cultura polígama onde é proibido o adultério, estas mulheres não são submissas. Cabe-lhes as tarefas domésticas, a educação das crianças, mas também o trabalho, dedicando-se à gestão do gado. Após o casamento cabe à primeira mulher a administração dos bens oriundos da venda de gado e da atividade pastorícia. Como os homens, também elas usam facas durante as suas deslocações, quase sempre em grupo, até por questões de defesa e integridade herdadas dos genocídios de 1904 a 1908, em que as tropas do Imperador Guilherme II (27.01.1859 a 04.07.1941) da Alemanha estima-se terem sido responsáveis pelo extermínio de cerca de 65 mil de um total de 80 mil povos Herero.

Em novembro de 2019 o governo alemão referiu-se a estas mortes como genocídio e em maio deste ano chegou a um acordo com a Namíbia pelo qual contribui com mais de dez mil milhões de euros em ajudas para o desenvolvimento deste país vizinho de Angola.

Quanto ao pedido de desculpa às incontáveis mulheres negras de África pelas violações de que foram e de que continuam a ser alvo durante séculos e, principalmente, pela desintegração de toda uma estrutura de poder matriarcal sobre a qual assentava a organização das sociedades, nem hoje nem nunca uma referência, uma assunção da culpa, um pedido de desculpa. Conclui-se que à mulher negra cabe-lhe exclusivamente a culpa, não se abrem portas para a remissão do pecado ou para crença num novo mundo por vir.

E as desculpas… Ouvirá alguma de nós um pedido de desculpas? Não. E é por isso que dou por mim até hoje a responder às inúmeras cartas de chamada de grupos agressores com um: “Por favor, diga-me onde quer que coloque o pedido de desculpas