O Presidente imperfeitamente perfeito

É legítimo assumir que era o representante de uma esquerda à esquerda do PS, mas as suas raízes marxistas nunca o impediram de ser um feroz europeísta.

O legado de Jorge Sampaio do Portugal do último meio século está longe de ser consensual e esse é um elogio que apenas cabe aos políticos que deixam marcas no tempo em que vivem e actuam. Pode perfeitamente dizer-se que era hesitante, mas foi ele que num gesto de lucidez e impaciência dissolveu a Assembleia da República para derrubar o Governo de Santana Lopes. Pode dizer-se que navegou à vista e foi mais espectador do que actor do seu tempo, mas é necessário recordar Timor ou o fim da presença portuguesa em Macau também à luz dos seus princípios e das suas escolhas. É legítimo assumir que era o representante de uma esquerda à esquerda do PS, mas as suas raízes marxistas nunca o impediram de ser um feroz europeísta ou de, no exercício de funções presidenciais, ficar ao lado de Durão Barroso na sua contestável decisão de deixar o Governo para rumar para Comissão Europeia.

Mesmo que o seu percurso político seja, como o de todos os grandes políticos, marcado por ângulos, rugas, equívocos ou até contradições, no momento em que somos convocados a recordar a sua biografia e o seu tempo há uma faceta que merecerá mais consenso e que enquadra todas as suas facetas: a sua bonomia, simplicidade e afabilidade. Jorge Sampaio era um homem bom, empenhado em causas e convicções, mobilizado por ideias sem ser sectário, ligado a sensibilidades e fidelidades dentro e fora do partido, sem nunca cultivar o tribalismo — até a sua dissidência do MES pode ser mais vista como um devaneio conjuntural do que uma tentativa irreversível de cisão. Foi o inspirador, em Lisboa, da solução política que ainda sustenta hoje o Governo, com um abraço do PS à esquerda que transforma os inimigos figadais do PCP em cúmplices. Manteve-se isento no infeliz processo da Casa Pia quando figuras gradas do seu partido foram envolvidas em suspeitas jamais provadas. Era um homem com sentido de dever e sentido de Estado.

Foi também um daqueles rostos incontornáveis para a geração que se politizou no 25 de Abril, assumiu as suas opções nos debates pré-integração europeia ou no duelo Mário Soares-Freitas do Amaral. Mesmo os que o viam como um político anódino podiam simpatizar com a sua fiabilidade e previsibilidade. Sampaio era, nestes dias de clivagem, incerteza e dramatismo, uma espécie de terceira via sustentada pela bonomia e ponderação. Era de uma esquerda mais extrema na doutrina, mas seguia uma esquerda ecuménica na acção, ora abrindo-se aos católicos antes do 25 de Abril, ora aos comunistas na corrida pela Câmara de Lisboa. Pode ver-se neste campo aberto de sensibilidades ou indefinição ou pragmatismo interessado. Como se pode acreditar que Sampaio era assim, um homem feliz por fazer pontes.

Na História que se há-de escrever sobre o estertor do salazarismo e do colapso do marcelismo, como sobre o primeiro meio século do Portugal democrático, Jorge Sampaio não terá o lugar de Mário Soares. Faltava-lhe o rasgo, a convicção e o desígnio. Não será nem Álvaro Cunhal nem Francisco Sá Carneiro, lídimos representantes das visões plurais com que o país se confrontava, entre a democracia liberal e a ditadura, entre a Europa e o bloco soviético, entre a democracia representativa e a democracia dita popular. Jorge Sampaio será ainda assim uma figura importante por ser transversal, difícil de definir e de catalogar, um “compositor de interesses”, na feliz expressão de Nuno Ribeiro.

Na esquerda dos anos 60 que se afasta dos pergaminhos republicanos em questões sensíveis como o colonialismo, na contradição entre a oposição ao PS que se institucionaliza nos anos 70 e a abertura pragmática que opera na Câmara de Lisboa, ou, já Presidente, nos equilíbrios impossíveis que procura num Governo PSD que se desmorona com a partida de Durão Barroso, que o levam do presidencialismo neutro ao presidencialismo activista, Jorge Sampaio teve sempre esse condão de parecer autêntico. Quando, já retirado, recebe prémios e lidera organizações em nome dos direitos humanos, ele está afinal a assumir aquela que foi, na essência, a sua verdadeira face: a de um homem bom, de valores, civicamente empenhado na luta sempre incerta em nome de um país melhor e de um mundo melhor. Não foi o político, o Presidente, o líder partidário perfeito, mas foi essa sua imperfeição que lhe deu o rosto humano que, à esquerda ou à direita, fica sempre bem na biografia de um democrata.