Sair para dentro

“Ironia, ou não, escrevo um texto sobre fugas na minha própria fuga”. É a “viagem à volta do meu quintal” da leitora Madalena Fernandes.

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O inesperado chegou, quase sem avisar, às nossas vidas. Decerto sabem do que falo, até porque nos últimos tempos não se ouve falar de outra coisa. As fugas que fiz numa altura em que se está refugiado em casa, em que estamos confinados às paredes e ao tecto da nossa casa, foram todas para o mesmo destino: o meu modesto e soalheiro quintal. Uma verdadeira fuga do meu quarto e da minha secretária. Serei, no entanto, uma privilegiada num tempo como este. 

Assim, quando o sol começa a espreitar, não perco tempo. Fujo logo para o quintal. O facto de ter um telheiro permite-me, também, fugir quando chove. Mas, com sol, a fuga é outra. Com sol, instala-se em mim uma paz, não só física, no meu corpo estendido na relva, na espreguiçadeira, no sofá ou na cama de rede, mas uma paz da alma, que me faz esquecer o resto à minha volta. Essa paz também me faz viajar de olhos fechados para lugares longínquos.

Passei a dar conta da harmonia do canto dos pássaros que se debruçam na oliveira, e das melodias que ficam a ressoar, quase como que em eco, na minha cabeça. Boas sonecas na cama de rede que me embala debaixo da oliveira, depois do almoço, ao fim da tarde, ou mesmo à noite, sentindo a aragem nos pés descalços.

Nem sempre está tudo calmo, nem sempre sou só eu e os melros. Se o vento vier no sentido certo, consegue-se ouvir o comboio que passa com destino a Sintra. Em segundo plano, ouve-se o barulho das obras de uma casa próxima, por vezes as conversas dos vizinhos, os cães a ladrar, as sirenes das ambulâncias ou a voz dos meus pais, abafada, longe, quando estou a ouvir música com os auscultadores, a chamar para a mesa. Tudo sem sobressaltos.

O vento traz-me ainda outras sensações, olfactivas, variadas, para todos os gostos. O cheiro a natureza (em certas alturas, não aconselhável a alérgicos), o cheiro do tabaco, do peixe assado ou de um churrasco. Às vezes, de roupa lavada que está estendida a secar.

Pode parecer que só nestes últimos meses é que descobri que tinha um quintal, mas não o via da mesma forma como agora. Ele esteve sempre lá, só que não era especial, porque a porta da rua estava aberta sem limitações. Nele já tínhamos saboreado muitos jantares, almoços, aniversários, tardes de Verão, jogos de futebol, mangueiradas, banhos de sol e até um acampamento na relva. Talvez agora tenha aprendido a contemplá-lo e a desfrutá-lo de uma forma mais minha.

Ironia, ou não, escrevo um texto sobre fugas na minha própria fuga.

Madalena Fernandes