Susana Travassos num “festival simbólico, dedicado à mulher num país árabe”

Depois de um disco com canções escritas por mulheres, Pássaro Palavra, a cantora e compositora portuguesa Susana Travassos participa no Egipto num festival no feminino. Esta quinta-feira, no Cairo, no primeiro de três dias do She Arts.

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Susana Travassos DR

É um festival em que a grande maioria das participantes são egípcias, havendo apenas, a par de uma cantora palestiniana, três representantes de países europeus: França, Suíça e Portugal. O seu nome é She Arts, decorre de 9 a 11 de Setembro no Centro Cultural Tahrir, na Universidade Americana do Cairo, e entre as várias siglas oficiais dos seus apoiantes, lá estão a esfera armilar portuguesa e o logotipo do Instituto Camões. A representar Portugal está a cantora e compositora algarvia Susana Travassos, que ao longo da sua carreira tem vindo, com êxito, a fazer pontes com as culturas sul-americanas, do Brasil à Argentina. Fruto desse seu trabalho, já gravou três álbuns Oi Elis (2008), Tejo Tietê, parceria com o violonista Chico Saraiva e produzido por Paulo Bellinati (disco que, gravado em 2013, permanece inédito em Portugal) e Pássaro Palavra (2019), gravado na Argentina e preenchido com canções sobretudo escritas por mulheres: ela própria, Ana Terra, Déa Trancoso, Luísa Sobral, Melody Gardot ou Mili Vizcaíno. Além disso, participou no Festival RTP da Canção de 2018, a defender, como cantora, a canção Mensageira, de Aline Frazão.

“Quando aceitei ir ao Egipto”, diz Susana ao PÚBLICO, “pensei em fazer uma viagem musical por quase todos os meus projectos, exceptuando o primeiro. A partir do Tejo Tietê, fazemos uma viagem musical onde entra um espectáculo que eu nunca lancei em disco, mas que apresentei bastante na América Latina, com violão de sete cordas e guitarra portuguesa, onde levávamos o fado para a música brasileira e vice-versa, com os ritmos latino-americanos misturados no fado. Achei que era hora de retomar um bocadinho esse repertório, onde está bem presente a raiz portuguesa, juntando-lhe, nessa mistura, canções do Tejo Tietê e do Pássaro Palavra”.

Com Susana (voz), que actua esta sexta-feira ao início da noite, estarão no Cairo a guitarrista francesa Elodie Bouny e o bandoneonista argentino Martín Sued, ambos radicados em Portugal. “O Martín chegou a fazer o concerto dos fados comigo na Argentina. E a Elodie, começámos a trabalhar juntas desde que ela está em Lisboa, e estamos num processo de fazer um duo.” Aliás, ainda no Egipto, vão actuar juntas no dia 12 de Setembro, numa sessão no Cairo Jazz Club.

Em cima da data do 11 de Setembro, nos 20 anos do ataque às Torres Gémeas, e num momento em que o Afeganistão volta a estar sob domínio dos taliban, pairando ali uma séria ameaça sobre os direitos das mulheres, Susana dá ainda mais valor a um festival como este, centrado na arte e no poder das mulheres. “Quando começou toda esta história no Afeganistão, senti que fazer este festival podia ser um momento simbólico, dedicado à mulher num país árabe. E ainda fiquei com mais vontade de ir, de participar. Há o receio inerente a estes tempos [com a covid-19, a pandemia], mas estou muito contente por fazer parte disto agora, neste momento”.