Paulo Rangel fala sobre a sua homossexualidade: “Foi uma coisa que nunca escondi”

Eurodeputado do PSD esteve no programa Alta Definição e falou sobre o passado, o futuro, a vida e a morte. Declamou poesia e disse que nunca fez da sua orientação sexual um segredo.

Foto
Paulo Rangel Rui Gaudencio

Mantém a calma nas crises. Tem muitos sonhos mas faz poucos planos. Estado actual: feliz. Paulo Rangel, 53 anos, apresentou-se neste sábado aos portugueses numa entrevista intimista, no programa Alta Definição (SIC), que serviu para comentar pela primeira vez em público a sua orientação sexual. Não chegou a dizer “sou gay”, mas foi tudo dito. “Foi uma coisa que nunca escondi”, garantiu a Daniel Oliveira, que conduziu a conversa.

Em 50 minutos, o eurodeputado do PSD falou muito sobre os pais e a morte de ambos (a última morrer foi a mãe, em 2019), sobre a infância feliz, os problemas de peso e os custos de enveredar pela política activa. Mais ou menos nesse ponto, referiu-se a campanhas negras. “Agora ando aí a ser alvo de umas campanhas negras por causa da minha orientação sexual”, começou por dizer, sem referir a capa do jornal Tal & Qual ("Eles querem ver Paulo Rangel a sair do armário"), que se debruçou sobre o assunto no final de Julho.

“Vivi sempre discretamente. Não é nenhum segredo”, insistiu para explicar, de seguida, que não teria dado esta entrevista até 2019, para proteger a mãe, católica, que sempre se mostrava preocupada com o custo que uma vida na política teria para o filho. “Temos de proteger a nossa família”, desabafou. Acabaria por repetir a ideia, momentos depois, ao dizer: “Fui muitas vezes discreto para proteger o meu núcleo familiar.”

Paulo Rangel falou depois sobre o difícil processo de aceitação da sua “condição” (como se referiu à homossexualidade) e revelou que nem sempre soube bem qual era a sua orientação sexual. “Eu próprio tinha muitas dúvidas.” Foi um processo de “descoberta gradual, alguma ignorância e recusa”, com mais anos a “não falar” do que a "falar” sobre o assunto. “Depois nasceu o ‘don't ask don't tell’ do Clinton e eu cresci aí.”

E após ter feito a revelação pública, como se sente? — quis saber o entrevistador. “Sinto-me como estava antes porque para mim não era um problema”, nem mesmo ao nível da conciliação com o cristianismo, respondeu. E acrescentou que, na sua opinião, a “orientação sexual de um político” não é um problema na sociedade portuguesa. Neste capítulo, só lhe restou uma mágoa: nunca ter conversado com a mãe sobre o assunto. “Essa conversa nunca existiu. Isso para mim era uma mágoa.”

"Não tenho vocação para detective privado"

Ainda no que diz respeito às campanhas negras, que incluem um vídeo com “cinco ou seis anos” em que o eurodeputado surge embriagado numa rua à noite, Paulo Rangel disse que, não tendo “vocação para detective privado”, consegue perceber de onde vem e qual o objectivo: “enfraquecimento político”. “Percebe-se”, assumiu, desconsolado e acrescentando que foi um incidente. “Não foi o único na minha vida.” Depois de Daniel Oliveira referir que não foi uma coisa má, porque não estava ao volante nem estava a fazer mal a ninguém, o eurodeputado respondeu: “Isso não. Mas também não é uma coisa de bem...”

Aproveitou o caso, ainda assim, para fazer uma revelação sobre a sua personalidade. “Em situação de crise, sou um óptimo decisor. Quando acontece alguma coisa grave, fico muito calmo”, garantiu. Na altura em que o vídeo foi revelado, foi isso que fez: parou, pensou e, calmamente, reagiu, citando Sérgio Godinho: “Todos temos glórias, terrores e aventuras.” Sobre as reacções dos outros, assumiu que ficou surpreendido com a “escala” dos apoios e que isso lhe deu “alguma esperança” sobre as redes sociais.

Finalmente, a questão da liderança do PSD não foi ignorada, e Rangel deixou claro que está pronto para o que o futuro lhe reservar. “Não tenho planos [para ser líder do PSD]. Não digo desta água não beberei”, disse, sem querer ser definitivo. “Sou uma pessoa que tem muitos sonhos mas que faz poucos planos. A vida ofereceu-me coisas boas e eu não as pedi.”

Depois de defender que “a glória é uma coisa efémera” e que “hoje ninguém sabe quem foram os primeiros-ministros entre 1976 e 1989” — motivo pelo qual não vê razões para tanta luta —, o eurodeputado do PSD rematou: “O futuro o dirá”, concluiu.