Fronteira terrestre torna-se o destino das viagens perigosas dos afegãos que tentam sair

Pelo menos uma pessoa morreu quando uma multidão se atropelou em pânico enquanto tentavam atravessar a fronteira com o Paquistão, perto de Spin Boldak, segundo a CNN. Cerca de cem americanos ainda no país querem sair.

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Refugiados afegãos que conseguiram passar de Spin Boldak para Chaman, no Paquistão Saeed Ali Achakzai/Reuters

Centenas de afegãos esperavam junto a postos fronteiriços para tentar sair do país, um esforço que já começara quando os taliban chegaram a Cabul e que se intensificou quando o aeroporto deixou de funcionar com a retirada dos últimos militares dos Estados Unidos, por não ter controlo aéreo.

Por isso, cada vez mais pessoas tentavam sair por terra. E esta quarta-feira, num momento de pânico que levou ao descontrolo de uma multidão, morreu pelo menos uma pessoa. “Eu e o meu pai estávamos a tentar passar a fronteira com o resto da família, perdi-o na multidão… Mais tarde, encontrámo-lo morto”, disse Safi Ullah, de 64 anos, à CNN.

Como a esmagadora maioria das pessoas não está a atravessar a fronteira, vão-se juntando em frente ao posto fronteiriço. Não conseguem seguir em frente nem voltar para trás, porque entretanto já se juntaram mais pessoas atrás delas. As que estão mais atrás não percebem que as da fronte não podem andar. E empurraram, esmagando as da frente, descreve a estação de televisão norte-americana. “Nunca vi tanta gente junta em Spin Boldak”, disse Abul Karim, que mora na cidade, à CNN. “Não havia espaço nenhum livre, milhares e milhares estavam a ir em direcção ao portão da fronteira.”

A fronteira não fechou, mas o Paquistão apenas aceita afegãos que viajem para tratamento médico, que tenham prova de morada no Paquistão, ou que vivam em Kandahar – o que não impede muitos outros de tentar, e verem o caminho barrado. Pelo menos 5000 vieram o pedido recusado na quarta-feira, disseram autoridades paquistanesas à CNN – admitindo que o número possa ser mais alto.

As pessoas estão todas a “esbarrar contra muros”, desabafou um antigo responsável norte-americano de um grupo informal que ajudou americanos e afegãos a sair através do aeroporto, e que continua agora esses esforços, à Reuters. A Casa Branca disse esta quinta-feira que há cerca de cem americanos no país que querem sair.

Muitos afegãos saíram de Cabul em direcção às fronteiras a leste e sul, outros tentam o caminho para o Irão, Uzebequistão, Turquemenistão ou Tajiquistão. Nas viagens, encontram postos de controlo taliban e as grandes incógnitas sobre o que poderá acontecer. Alguns conseguiram sair – com passaporte estrangeiro, visto, ou recorrendo a outro método, o suborno. Outras já sabem que não conseguem passar: mulheres a viajar sozinhas.

Os grupos que estão a ajudar pessoas a sair aconselham a arriscar apenas a quem saiba que está a ser “activamente perseguido” pelos taliban. Caso contrário, o melhor é esperar sem chamar a atenção, disse o antigo responsável dos EUA à Reuters. “Sei que é algo muito difícil de dizer a uma população que está muito assustada e com medo do seu futuro”, admitiu.

A reabertura do aeroporto será para muitos a maior esperança. Este é o objectivo de negociações a decorrer entre os taliban, a Turquia, e os Países Baixos admitem também ajudar. Mas as negociações podem demorar dias – ou semanas.  

A ministra dos Negócios Estrangeiros dos Países Baixos, Sigrid Kaag, disse que a participação do país pode implicar “recursos mas também pessoas”, dependendo tudo “do alcance do acordo do Qatar e da Turquia com os taliban”, declarou. O país tem com prioridade ajudar cidadãos holandeses, residentes no país, e afegãos “que queremos trazer para os Países Baixos”.

Numa conferência de imprensa com o seu homólogo britânico, Dominic Raab, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Qatar, Mohammed bin Abdulrahman Al-Thani, disse esperar “que haja boas notícias nos próximos dias” em relação ao aeroporto.

Enquanto isso, os taliban preparavam-se para anunciar um governo esta sexta-feira, enquanto os combates se intensificavam no Vale de Panshir, na última província a resistir ao domínio dos “estudantes de teologia”. É aí que está o filho do venerado comandante Ahmed Shah Massoud (que em 2001 lutava contra os taliban quando foi assassinado, dois dias antes do 11 de Setembro), e o ex-vice-presidente Amrullah Saleh, que reclama a presidência após o abandono do país pelo ex-presidente Ashraf Ghani, quando os taliban estavam à porta de Cabul.