PS recusa falar em sucessão e não acredita em saída de Costa depois de 2023

Os socialistas vão para o congresso a evitar falar do futuro da liderança do PS. E apesar de os possíveis sucessores se sentarem na linha da frente, o nome mais apontado para suceder a António Costa... é António Costa.

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António Costa não descarta a possibilidade de se recandidatar à liderança do PS em 2023 Nuno Ferreira Santos

A uma semana do encontro nacional do partido, António Costa tentou arrumar o assunto de uma eventual recandidatura à liderança ao PS, mas só fortaleceu o tabu. E, nas vésperas de um congresso sem história, esse tornou-se o grande tema. Duarte Cordeiro, Fernando Medina e Francisco Assis já disseram o que pensam sobre o assunto: Costa fica mais um mandato. E até que haja uma mudança, o secretário-geral mantém os possíveis sucessores por perto, em suspenso – uns mais silenciosos do que outros.

De Belém, o líder socialista tem recebido a pressão de evitar crises políticas e garantir a execução do Plano de Recuperação e Resiliência sem sobressaltos. Embalado pela moderação das críticas aos parceiros da esquerda, o partido tem também adoptado um discurso de união interna, afastando a discussão sobre a futura liderança.

Depois de, em 2018, Pedro Nuno Santos ter afastado as dúvidas que existiam acerca da sua ambição em relação ao lugar de secretário-geral do partido com um discurso que inflamou o congresso (e irritou António Costa), o agora ministro das Infra-estruturas preferiu o silêncio – e será o único potencial sucessor a não intervir no encontro.

E se, no último congresso, Duarte Cordeiro subscreveu a moção de Pedro Nuno Santos, desta vez o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares nem quer ouvir falar de eleições no PS antes de tempo. E insiste que a moção que subscreveu há três anos não tinha intenção de dividir os socialistas. “Os objectivos não foram assim tão divisionistas como se procurou fazer crer”, afirmou esta semana, em entrevista à Lusa.

Apesar de não querer falar em sucessão, Duarte Cordeiro descarta que António Costa tenha criado “um tabu” quando esclareceu que só quando “chegar o momento” é que reflectirá se será “a pessoa com melhores condições de proceder a essa liderança do PS”. E abriu a porta a uma liderança feminina. “Felizmente, o PS tem, em várias gerações, mulheres e homens com excelentes qualidades para exercerem essas funções”, declarou há algumas semanas em entrevista ao Expresso. Os nomes apontados são os de Ana Catarina Mendes, líder parlamentar, e Mariana Vieira da Silva, ministra da Presidência (e que Costa escolheu para o substituir enquanto primeira-ministra incumbente durante as suas férias).

Enquanto Duarte Cordeiro não atribui especial significado político à ideia de que o próximo secretário-geral do PS pode ser pela primeira vez uma mulher, Álvaro Beleza acredita que “é o momento” de apostar nessa mudança. Para Duarte Cordeiro, eleger a primeira secretária-geral do PS “é uma circunstância inevitável”. Para Álvaro Beleza, “daqui a uns anos, precisamente nos 50 anos do 25 de Abril” será chegada a altura de “ter uma mulher primeira-ministra”. Mas ainda é cedo, acrescenta. Até porque, vontades e apostas à parte, Álvaro Beleza duvida que a questão da liderança se venha a pôr em 2023.

Também para Francisco Assis “não há grandes dúvidas” de que, chegada a data, seja Costa a suceder a Costa. “Acho que ele vai ser o candidato do PS e depois logo se vê o que vai acontecer. Em 2024, especula-se que poderá vir a desempenhar ou ser convidado para exercer um cargo europeu”, antecipa o socialista.

E nem mesmo os possíveis sucessores se arriscam a desafiar Costa. Fernando Medina, que se recandidata à Câmara de Lisboa, já garantiu que ficará até ao final do seu mandato caso seja reeleito – o que o afasta da corrida ao Rato pelo menos até 2025. “Espero que António Costa seja candidato em 2023. Ficarei muito satisfeito com isso”, afirmou. Nas entrelinhas fica a expectativa de Medina repetir a sucessão da Câmara de Lisboa e receber de Costa o testemunho da liderança socialista. E, no congresso, espera-se ouvir o eco das palavras de Medina, com a conclusão de que, nos próximos tempos, “o melhor sucessor de Costa é Costa”.