Exercício físico sim, medalhas talvez

O desporto escolar obrigatório e plural é apanágio das nações mais desenvolvidas. Aquilo que devemos procurar é a massificação da prática de exercício físico, desde as idades mais precoces até à terceira idade.

Portugal, fruto da sua cultura conservadora e machista e, em particular, como resultado cumulativo de séculos de Inquisição e décadas de Ditadura, apresenta um considerável atraso ao nível da prática regular de exercício físico pela sua população (algo que é ainda mais notório no caso das mulheres, fruto da discriminação que o machismo provoca).

Mesmo o tempo que já vivemos em democracia não tem sido capaz de apagar este atraso histórico.

Acontece que o exercício físico massificado é uma componente fundamental de uma nação desenvolvida: o exercício físico moderado e regular traz saúde física e mental, promove a felicidade e combate a obesidade e o stress crónico, que são duas das consequências nefastas do crescimento económico.

A massificação ao nível do ensino, que o Portugal democrático conseguiu, não foi acompanhada de igual massificação do exercício físico. Aliás, o lugar menor que exercício físico tem tido no percurso escolar das crianças é bem disso um paradigma: veja-se o vai-e-vem da nota de Educação Física como parte integrante da média de acesso ao ensino superior.

O desporto escolar obrigatório e plural é apanágio das nações mais desenvolvidas. Em Portugal, quem quiser praticar exercício físico regular tem que procurar os clubes desportivos ou os health clubs, não sendo essa a forma mais adequada de conciliar uma prática regular de exercício físico com o percurso escolar.

A recente prestação de Portugal no mealheiro olímpico espelha um pouco essa realidade: é que, apesar de ter sido a melhor prestação de sempre, ficou muito aquém das nações desenvolvidas, e mesmo de outras economicamente mais atrasadas. Aliás, sempre que acontecem os Jogos Olímpicos, surge esta discussão acerca do atraso de Portugal ao nível do desporto. E pouco ou nada se faz para encetar mudanças.

Mas sejamos claros: a performance no medalheiro olímpico não deve ser o objectivo central da política desportiva de uma nação. Aquilo que devemos procurar é a massificação da prática de exercício físico, desde as idades mais precoces até à terceira idade.

Aliás, Portugal tem avançado mais no domínio do exercício físico recreativo do que na prática desportiva profissional e, do mal o menos: o mais importante é, exactamente, o avanço na prática regular do cidadão comum. É o exercício físico moderado, por parte das pessoas comuns, que traz os verdadeiros benefícios de saúde e sociais e marca o progresso civilizacional.

A obtenção de medalhas olímpicas é todo um outro patamar, que obriga à existência de profissionais altamente competitivos, que praticam até à exaustão, o que deixa de ser saudável. Aliás, a prática desportiva de alto rendimento está associada a menos saúde, muitas lesões, altos níveis de stress e a práticas ilegais como o doping, a corrupção ou apostas ilegais.

Por tudo isso, não me preocupam muito as medalhas olímpicas que, inclusivamente, só beneficiam, verdadeiramente, uma ínfima parte da população. Preocupa-me, sim, o alargamento da prática do exercício físico a toda a população, o que passa pela massificação do desporto escolar e pela criação de espaços públicos que permitam essas práticas. Este exercício físico massificado pode ir desde caminhadas ou passeios de bicicleta nos parques urbanos, passando pelo ioga, até à prática dos desportos de ondas nas praias. Não têm que ser desportos competitivos.

As melhorias que temos assistido em Portugal ao nível da prática do exercício físico têm tido muito a ver com as mudanças geracionais e com a criação de algumas estruturas (como marginais restauradas, parques da cidade, ecopistas ou passadiços) que têm permitido uma muito maior adesão à corrida, ao ciclismo ou às caminhadas de lazer.

Falta é uma aposta decisiva no desporto escolar para dar mais escolhas às pessoas e permitir uma aprendizagem correcta dos diferentes desportos e a construção de mais infra-estruturas desportivas públicas como campos de basquete, de ténis, de vólei de praia, etc.

Mas não caiamos no erro de querer tornar Portugal uma potência olímpica: não é aí que devemos investir os nossos parcos recursos. Até porque, tenho a certeza, a massificação do exercício físico produzirá medalhas olímpicas.