Viscoso... mas gostoso!

Cem gramas de chocolate podem ter até 60 fragmentos de insectos. Nós, por cá, comemos insectos e nem damos conta… Vamos mudar isso? Num país em que o sushi é moda, em que se aproveita o porco todo e os caracóis são um manjar, há potencial na adopção de insectos comestíveis, até porque um gafanhoto grande é um camarão da terra.

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Tatiana Moreira

Os insectos estão na boca do mundo — literalmente! Em fins de Junho deste ano, os insectos foram finalmente aprovados para alimentação humana em Portugal, mas porquê celebrar uma notícia que causará desdém à maioria dos portugueses?

Moscas, escaravelhos, formigas: sempre fui fascinado por estes amigos tantas vezes desprezados, mas foi a ver um documentário da National Geographic que soube o nome daquilo que me considero agora: um entomólogo. Ser criado na cozinha de um restaurante e ver a minha mãe a cozinhar magistralmente deu-me aquele gosto por cozinhar, que ao fim de largos anos decidi aliar à minha panca por insectos, levando-me a advocar pô-los numa frigideira ao alhinho.

Dois terços da população alimenta-se activa e conscientemente de insectos, mas nós cá temos até repulsa sequer em pensar nisso. Mas lembra-te, caro leitor, que o corante cochonilha usado desde em iogurtes até sidras é feito de insectos esmagados. Cem gramas de chocolate podem ter até 60 fragmentos de insectos. Nós, por cá, comemos insectos e nem damos conta… Vamos mudar isso? Num país em que o sushi é moda, em que se aproveita o porco todo e os caracóis são um manjar, há potencial na adopção de insectos comestíveis, até porque um gafanhoto grande é um camarão da terra. Até os manuais escolares os começam a apresentar como uma fonte de comida...

Estima-se que existam 10 milhões de espécies de insectos, traduzindo-se numa riquíssima variedade de sabores e texturas, opondo-se à fraca oferta de proteína animal que existe no mercado português — vaca, porco, aves e pouco mais. Actualmente, estão permitidas sete espécies de insectos em Portugal, mas, com a aprovação de padrões de segurança alimentar para mais espécies, esse número irá aumentar. Os insectos são ricos em proteína e gorduras: o grilo-doméstico atinge até 65% de proteína em peso seco e a larva da mosca-soldado negra vai até aos 35% de gordura. Os insectos também não sintetizam colesterol, pelo que o leitor mais avisado pode consumir grilos sem se sentir culpado. E podem ser incorporados em múltiplos produtos, em farinha ou inteiros, para permitir uma melhor aceitação por parte do consumidor, seja em barrinhas, massas, pão, etc.

Pessoalmente, sou adepto das larvas do escaravelho-da-palmeira salteadas em óleo de coco, lembram o sabor e consistência pastosa do queijo Roquefort – menos uma praga e mais uma barriga cheia. Contudo, ainda que seja a forma predominante de obter insectos, não aconselho o leitor menos precavido a sair de casa e começar a escolher o cardápio e comer insectos crus, como Bear Grylls. Existem muitas espécies de insectos que podem causar alergias, ser intragáveis ou até mesmo dar uma ferroadela, pelo que alguma formação é necessária.

E se pensarmos nos insectos para nos ajudarem a combater as alterações climáticas ou o desperdício alimentar? Os insectos actuam como uma dupla engrenagem numa economia circular, alimentando-se, por exemplo, de efluentes das agro-indústrias e produzindo não só proteína comestível, mas também dejectos ricos em nutrientes, que podem ser reaproveitados para a agricultura, repondo a cadeia de valor. Usando como padrão a larva do escaravelho-da-farinha, comparada à carne de vaca usa 8-14 vezes menos área agrícola, cinco vezes menos água e emite 6-13 vezes menos CO2. Em regime de exploração industrial, nem sequer são precisos pesticidas ou antibióticos. Assim, tem-se uma maior produção de proteína com um uso muito mais regrado dos nossos recursos e reduz-se a poluição ambiental: uma combinação vencedora. Mas engane-se quem acredite que é uma panaceia, pois ainda há alguns desafios, como o gasto energético para o aquecimento das instalações industriais, o perigo de introdução de espécies exóticas, padrões de segurança alimentar por definir e a criação de tecnologias de ponta para a criação e processamento.

O futuro vem aí em asas de insectos e já não é clichê dizer, em conversas de café, que os insectos são a comida do futuro. Vamos juntar-nos ao Timon e ao Pumba e aprovar o “Viscoso, mas gostoso!”? Para ficares a saber mais visita o meu Instagram, onde dou dicas e novidades sobre comer insectos em Portugal.