Presidente afegão que fugiu de Cabul está nos Emirados Árabes Unidos

Embaixada afegã no Tajiquistão pediu à Interpol para prender Ghani e os seus dois colaboradores mais próximos, acusados de “roubo do tesouro” do Afeganistão.

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Ghani deixou o Palácio Presidencial de Cabul no domingo HEDAYATULLAH AMID/EPA

Pensa-se que terá voado da capital do Afeganistão para um país vizinho, o Tajiquistão ou o Uzbequistão. Algumas notícias davam conta de que teria como destino final o sultanato de Omã, país com tradição de neutralidade no Golfo Pérsico. Afinal, Ashraf Ghani, Presidente afegão entre 2014 e o último domingo, já chegou aos Emirados Árabes Unidos. Num comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da federação confirmou esta quarta-feira que recebeu “o Presidente Ghani e a sua família por motivos humanitários”.

Ghani, que trabalhou durante 24 anos no estrangeiro (principalmente nos Estados Unidos, mas também no Paquistão), incluindo dez anos no Banco Mundial, voltou ao seu país meses depois da invasão liderada pelos Estados Unidos, no fim de 2001. Em 2002, integrou o Governo de Hamid Karzai como ministro das Finanças e em 2009 candidatou-se pela primeira vez às eleições presidenciais, ficando em quarto lugar.

Foi eleito nas presidenciais de 2014 e reeleito nas seguintes, em 2019, sempre com denúncias de fraude eleitoral – e era cada vez menos popular, mesmo entre os afegãos que votaram nele.

Acusado por muitos de “traição” e “cobardia”, por não ter sido capaz de organizar a defesa do país face aos avanços dos taliban, Ghani deixou o Palácio Presidencial no domingo, quando os fundamentalistas estavam às portas de Cabul, sem falar aos afegãos. Mais tarde, escreveu um post no Facebook onde dizia ter saído para impedir “uma inundação de sangue derramado”. “Os taliban venceram com as suas espadas”, escreveu. “Agora são responsáveis pela honra, propriedade e autopreservação dos seus compatriotas.”

Na segunda-feira, o porta-voz da embaixada russa em Cabul, Nikita Ishchenko, dizia à agência RIA que Ghani fugiu com “quatro carros cheios de dinheiro”: “Eles tentaram pôr mais dinheiro no helicóptero, mas nem todo coube. Algum dinheiro foi abandonado na pista”, afirmou.

Entretanto, já esta quarta-feira, a embaixada afegã no Tajiquistão pediu à Interpol para prender Ghani, sob acusação de “roubo do tesouro” do país, noticiam jornais tajiques.

Ghani não é o único nome no pedido de detenção enviado para a polícia internacional: este inclui ainda o seu Conselheiro de Segurança Nacional, Hamdullah Mohib, e o ex-chefe do gabinete administrativo do Presidente, Fazel Mahmood. Estes costumavam ser referidos como a “república dos três homens” de Ghani e eram acusados pelos críticos de tomarem todas as decisões sozinhos, mesmo quando não dominavam os temas, e de nunca terem deixado de ser burocratas com passaporte duplo que passavam todo o tempo que podiam fora do país e pouco conhecimento teriam da realidade afegã.