É a voz dos mais jovens que mais ecoa no que respeita ao ambiente

Actualmente, o impacto global do digital representa 4% das emissões globais de CO2 e a produção de dispositivos digitais é responsável por quase metade desta pegada. Na outra extremidade do processo de fabrico, temos o lixo electrónico, uma vez que as pessoas se desfazem de forma incorrecta da sua electrónica para criar espaço para novos produtos.

Foto
daniel rocha

Apesar de não ser um tema só de agora, a sustentabilidade tem vindo a ganhar destaque, em especial na voz dos mais jovens. Veja-se que, entre a geração dos baby boomers e a geração Y, a necessidade de preservação dos recursos naturais começou a ganhar relevo, em muito por consequência dos hábitos de consumo excessivo e o seu notório impacto ambiental. Foi nesta altura que a poupança de água e energia em contexto doméstico, o evitar do desperdício alimentar e as escolhas por estilos de vida mais amigos do ambiente, como a preferência por deslocações alternativas às habituais viagens de carro ou até a compra por produtos locais e o vegetarianismo, foram adquirindo terreno.

Mas é hoje, numa época em que a democratização da comunicação se declara com tanto ímpeto, que se torna improvável a existência de uma posição de indiferença face ao tema e o apelo às escolhas conscientes é cada vez maior.

Numa consulta pública organizada pelo Governo português, no ano passado, no âmbito da preparação do Plano de Acção Social Europeu, foram ouvidas crianças — entre os oito e os 15 anos — que manifestaram como uma das suas principais preocupações o futuro do planeta e as questões da sustentabilidade. A diferença para as abordagens já consolidadas pelas gerações anteriores é que as crianças e jovens mostram uma noção da necessidade e espaço de acção que vai para além das medidas abordadas pela geração dos seus pais.

Se é verdade que a preocupação ambiental é crescente, e uma constante entre as gerações mais novas, também o é que este tema tem vindo a ganhar novos contornos e as medidas de protecção do planeta são aplicadas a novos campos da esfera de vida de cada um. Em questões práticas observa-se, por exemplo, uma predisposição por parte das gerações mais jovens em pagar mais por produtos de telecomunicações mais “verdes”, segundo um estudo desenvolvido pela consultora Boston Consulting Group, no decorrer deste ano. Também a economia circular saiu dos livros e não é tema que conheçam só das aulas. Os mais jovens gostam de o aplicar nas compras que fazem — sejam estas de roupa, de mobília e decorações ou até nos aparelhos electrónicos que utilizam.

A escolha por produtos não novos junta vários ideais defendidos por estas gerações — na moda, a possibilidade de aceder a itens exclusivos e a preços mais baixos e a consciencialização por uma produção ética e ambientalmente sustentável; no mobiliário entra a vontade de meter mãos à obra e a capacidade de poupar e dar um cunho pessoal à peça em questão, com recurso aos já famosos DIY e na decoração a escolha pelo minimalismo tem crescido exponencialmente. Já nos aparelhos electrónicos, que sabemos servirem propósitos variados para os jovens — são instrumentos de trabalho e de procura de informação, “espaço” para convívio e ainda companhia nos tempos livres — começa a surgir um novo termo: a green tech. Esta “tecnologia verde” é um ecossistema de tecnologias que favorece a preservação do meio ambiente e auxilia a diminuição da pegada ambiental do utilizador.

Este termo consolida em si desde a ideia de utilização de técnicas de produção mais sustentáveis, até às aplicações direccionadas à partilha de carros ou ao uso de veículos eléctricos.

Actualmente, o impacto global do digital representa 4% das emissões globais de CO2 e a produção de dispositivos digitais é responsável por quase metade desta pegada. Na outra extremidade do processo de fabrico, temos o lixo electrónico uma vez que as pessoas se desfazem de forma incorrecta da sua electrónica para criar espaço para novos produtos.

Os números de 2019 dizem-nos que existem 53,6 milhões de toneladas de lixo electrónico a ser produzidas, anualmente, a nível global. Este número aumentou 21% em cinco anos e continua a aumentar a uma taxa de 3% ao ano e apenas 17% dos resíduos electrónicos mundiais são devidamente reciclados. Antes da reciclagem existe ainda a possibilidade de recondicionamento — optar por um smartphone recondicionado, ao invés da compra de um novo, previne a produção de 30 quilos de emissões de CO2. Mudar hábitos não é uma tarefa fácil e não pode ser apenas uma responsabilidade do consumidor final – toda a cadeia de valor tem de participar. É essencial que os fabricantes trabalhem cada vez mais para uma maior reparabilidade dos dispositivos, assim como a recolha dos aparelhos e a disponibilidade das peças de reposição.

O presente e o futuro são preocupantes, mas apesar da habitual adjectivação dos jovens como apressados, consumistas e até narcisistas são estes quem, mais uma vez, traz consciência e esperança para o retrocesso e recuperação de um mundo mais criterioso nas suas escolhas, para que estas sejam não só mais éticas como também ambientalmente sustentáveis — em todas as áreas de actuação das suas vidas.