Começou o julgamento de Maria Kolesnikova, uma das principais opositoras do regime bielorrusso

As autoridades bielorrussas ofereceram-se para libertar a opositora em troca de uma entrevista em tom de arrependimento a um media estatal. Kolesnikova insistiu na sua inocência e recusou a oferta.

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Maria Kolesnikova e Maxim Znak na sua cela no tribunal onde começaram a ser julgados Ramil Nasibulin/BELTA/Reuters

Quase um ano depois de ter sido detida, começou esta quarta-feira o julgamento à porta fechada de uma das principais líderes da oposição na Bielorrússia. Maria Kolesnikova, que ajudou a organizar os protestos do ano passado contra o Presidente bielorrusso, Alexander Lukashenko, está a ser julgada juntamente com o advogado Maxim Znak. Ambos os activistas podem ser condenados a penas de 12 anos de prisão.

Os dois opositores são acusados de conspirar para subir ao poder ilegalmente, criar uma organização extremista e incitar acções que comprometem a segurança do país. Os críticos e as pessoas próximas dos arguidos afirmam que as acusações não são justificadas e têm motivações políticas.

Kolesnikova falou com o canal televisivo russo TV Rain e descreveu as acusações como absurdas, numa entrevista divulgada esta quarta-feira. Acusou as autoridades bielorrussas de estarem demasiado “aterrorizadas para [realizar] um julgamento aberto, onde todas as pessoas assistem, de facto, que as são as autoridades o principal perigo e ameaça para os bielorrussos, para a Bielorrússia e para a segurança nacional”.

E antes do julgamento começar, Kolesnikova disse, numa nota enviada da prisão, que as autoridades se ofereceram para libertá-la em troca de um pedido de perdão e de uma entrevista em tom de arrependimento concedida a um meio de comunicação estatal. A opositora insistiu na sua inocência e rejeitou a oferta.

O ambiente do julgamento não a demoveu de aparecer sorridente e a dançar dentro da cela no tribunal, enquanto fazia corações com as mãos, um gesto que fazia amiúde durante os protestos do ano passado, segundo mostrou a Sputnik.

Rosto dos protestos

Maria Kolesnikova foi um dos rostos dos protestos na sequência das eleições de 9 de Agosto, consideradas fraudulentas, que deram a vitória a Alexander Lukashenko, no poder desde 1994. Antes das eleições, a opositora uniu forças com Svetlana Tikhanouskaia e Veronika Tsepkalo (ambas saíram do país depois das eleições) para fazerem frente a Lukashenko, depois de todos os candidatos masculinos de relevo terem sido excluídos da corrida eleitoral.

Tal como Znak, integrou depois o Conselho de Coordenação, um órgão político que visa uma transição pacífica de poder. Mas tem sido perseguido desde o início pelo regime, bem como todos os seus membros. Acabou por ser detida em Setembro na fronteira com a Ucrânia, depois de rasgar o seu passaporte para impedir que as autoridades bielorrussas a expulsassem do país. E assim se tornou numa das mais de 35 mil pessoas que foram presas arbitrariamente desde o início dos protestos, reprimidos brutalmente pelas forças policiais.

Depois da detenção dos activistas em Setembro, Znak entrou em greve de fome. O opositor disse ao seu advogado que, naquele momento, era o único recurso que tinha para lutar contra a injustiça e as acções arbitrárias.

O pai da opositora, que não pôde assistir ao julgamento, disse à emissora alemã ARD que não espera “surpresas” e, por isso, acredita que o veredicto “não será justo”. Mas considera que a filha foi “corajosa”: “É um acto muito heróico e um exemplo para muitos”.

Apenas um pequeno grupo de apoiantes dos activistas se juntou perto do tribunal em Minsk, contou a BBC. “Apoiar abertamente a oposição é perigoso agora”, refere a emissora britânica, explicando que a capital bielorrussa “mudou drasticamente desde a onda de protestos do ano passado”.