“O 15 de Março foi um crime e um erro político”

O historiador Valentim Alexandre acabou de publicar o livro Os Desastres da Guerra - Portugal e as revoltas em Angola, no período de Janeiro a Abril de 1961. Em entrevista ao PÚBLICO, admite que “há um fosso enorme entre aquilo que os investigadores estão a fazer e aquilo que a opinião pública conhece”. A ideia mítica do Império persiste “porque por muito traumática que tenha sido a Guerra Colonial isso não desaparece de um dia para o outro”.

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Fala muito da chamada pax lusitana nas colónias, uma ideia anterior à emergência dos movimentos de libertação.
A pax lusitana era um mito. A guerra colonial começa em 1961 e as chamadas campanhas de pacificação – que foram as campanhas de ocupação dos territórios em África – foram 40 anos antes. Não havia pax lusitana. As campanhas de ocupação foram muito violentas muitas vezes, de um lado e de outro. Tinha havido revoltas localizadas, mas com grande intensidade, como é o caso de Batepá, em São Tomé e Príncipe, em 1953, uma repressão terrível. A mesma coisa em Timor em 1959, com a revolta de Viqueque. Como Mueda, em Moçambique, em 1960 e ainda antes na Guiné, com o massacre de Pidjiguiti. Houve muitos incidentes, com repressão muito violenta, deportações. Não havia pax lusitana. Mas, por exemplo, era utilizada nos discursos de Salazar, quando dizia que a África estava toda em fogo, mas isso não tinha nada a ver com a África portuguesa, porque na África portuguesa não havia colonialismo. O que havia eram “províncias ultramarinas”. Havia uma unidade nacional e não havia resistência a essa unidade, porque toda a gente se sentia português. Salazar diz, várias vezes, uma frase que creio que é do almirante Sarmento Rodrigues, que foi ministro do Ultramar, que os angolanos e os moçambicanos acediam à noção de pátria através da pátria portuguesa porque eles não eram nada. Não tinham nação propriamente. O que é verdade... Não havia uma nação, ou havia vinda de lá do fundo dos tempos. O regime disse sempre que não acreditava que existisse nacionalismo africano.