Um campeão que se despede e outro que se apresenta

Nelson Évora saltou com dor nas qualificações do triplo em Tóquio e falhou a final na sua despedida olímpica. Pedro Pablo Pichardo fez o melhor salto e lançou a sua candidatura á medalha de ouro.

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Nelson Évora não conseguiu a qualificação para a final nos seus quartos Jogos Olímpicos Reuters/DYLAN MARTINEZ

Foi há 17 anos que um jovem atleta chamado Nelson Évora se apresentou pela primeira vez em Jogos Olímpicos. Em Atenas 2004, ainda não tinha chegado a sua vez, mas era o lançamento para uma carreira como poucas no desporto português, em que chegou ao topo e por lá se manteve durante mais de uma década. Esta terça-feira foi o dia em que a vida olímpica do grande triplista português chegou ao fim, numa manhã quente e húmida em Tóquio, com uma qualificação feita em dor e sofrimento. Em termos de marca absolutamente indigna dele. Mas uma despedida estranhamente apropriada, como sempre a tentar chegar o mais longe possível na caixa de areia e não a ver de fora.

Ao mesmo tempo que Évora, campeão de 2008, se despedia dos palcos olímpicos (mas não da carreira, como o próprio fez questão de dizer), Pedro Pablo Pichardo declarou-se como o principal candidato à medalha de ouro, até porque Christian Taylor, o dominador da disciplina nos grandes campeonatos, não está em Tóquio devido a lesão.

A saltar por Portugal desde 2019, o luso-cubano foi o melhor das qualificações, com 17,71m ao segundo salto (a marca de qualificação era de 17,05m) e, assim que foi confirmado como válido, pegou na mochila e foi embora. Já não precisava de estar ali.

“Acho que o principal está na minha cabeça. Sinto-me bem preparado fisicamente. Agora é fazer o que sei fazer e veremos o que acontece. Sinto-me bem, preparado”, disse o saltador do Benfica, que não quis falar com a imprensa cubana que andava pela zona mista.

A cumprir a sua estreia olímpica, Pichardo tem os olhos na medalha de ouro, mas não entra em excesso de confiança. “Não posso dizer que sou imbatível. Todos estamos em boa forma, preparados para uma medalha, vai ser só o dia em que se vê quem salta mais.”

Pichardo iria voltar dali a dois dias para lutar pelo título, Nélson Évora não. Tudo o que ele fazia era uma despedida, ele que tinha assumido que Tóquio 2020 seria a última vez. Foi um dos primeiros a saltar, mas agarrou-se à perna direita e fez nulo. Ao segundo, uma marca ridícula para ele num salto falhado (15,39m), e um nulo ao terceiro.

O problema não era o menisco, ao qual tinha sido operado 18 semanas antes dos Jogos, mas o músculo da virilha. Saltou com dores, terminou com dores e, no final, foi cumprimentando os que têm sido adversários ao longo dos anos – Will Claye, o melhor dos norte-americanos em Tóquio e admirador confesso de Évora, com quem partilhou vários pódios, deu um grande abraço ao português.

Talvez o próprio Évora já soubesse as condições em que estava em Tóquio e que a qualificação fosse impossível, mas queria um final, seja ele qual fosse, para a sua história olímpica que começou em 2004, continuou com o título em 2008, teve uma interrupção em 2012 por causa de uma lesão grave e foi retomada com um sexto lugar na final em 2016. Talvez confiasse na sua tremenda capacidade de superação nos grandes momentos, demonstrada em cada medalha que conquistou em circunstâncias difíceis.

Mas esta saída da cena olímpica não significa o final da carreira. “É o fim dos Jogos Olímpicos, mas o fim da carreira ainda não está em cima da mesa. Tenho de ter um percurso de saída. Não tenho nada a provar, simplesmente queria divertir-me. Logo no primeiro ensaio, doer-me como doeu, não pude desfrutar da prova”, lamentou. Mas desfrutou do respeito dos adversários. “Foi reconfortante. Saímos da prova e somos todos amigos, gostamos todos uns dos outros, uns mais do que outros, sem dúvida.”

E Pichardo, também lhe teria dado um abraço se ainda estivesse na pista quando acabaram as qualificações? Aqui Évora deixou mais ou menos evidente que não há grande relação entre si e o luso-cubano que lhe tirou o recorde de Portugal. “O Pichardo? Há-de aprender com a vida, espero que lhe corra muito bem. Acho que não me viria abraçar, não sei porquê. Não por mim. Não serei eu que teria de abraçá-lo”, frisou Évora, que nunca pareceu muito confortável com a naturalização de Pichardo em 2019.

Agora, Évora vai parar algum tempo para pensar no que é que o seu corpo de 37 anos ainda pode aguentar. “Tenho de fazer um bom período de recuperação, lesionei-me em finais de Fevereiro e tive de recuperar super-rápido, queimar muitas etapas, e agora tenho de respeitar o meu corpo, regenerar bem. Sei que era capaz e sentia-me super-bem, não esperava era que a virilha me fosse saltar naquele momento. Agora é recuperar bem e preparar a próxima temporada com calma, tentar fazer o melhor de mim.”