A interseccionalidade da luta por justiça climática

Precisamos de avançar na construção de um plano social e económico, construído democraticamente, que coloque a vida, a justiça no centro.

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Nuno Ferreira Santos

Hoje em dia ouve-se falar muito de clima. O panorama a nível global é catastrófico, uma vez que o palco é dividido entre a comunidade científica que proclama alertas cada vez mais alarmantes (veja-se a construção do novo relatório do IPCC que decorre no momento de escrita deste artigo), políticas institucionais que dão passos tímidos não se aproximando do necessário e possível e activistas continuamente insatisfeitos com a insuficiência de respostas.

Por outro lado, a confusão negacionista sobre o tema tem perdido cada vez mais terreno face aos fenómenos climáticos que vimos decorrer recentemente: as cheias na Alemanha, a situação de fome no Madagáscar (situação declarada pela ONU como directamente decorrente da crise climática), etc. A evidência de que é preciso uma solução urgente para resolver a crise climática impõe-se com cada vez mais força - o ponto de discórdia é, portanto, de que modo essa resposta pode surgir.

A resolução deste problema de expressa magnitude exige uma mobilização de massas sem precedentes na história contemporânea. Implica uma emancipação social que se apresse a exigir à maioria dos governantes mundiais a mudança do rumo da história. Uma vez que nem todas podemos sonhar em acompanhar o Elon Musk e construir uma vida num novo planeta, sabemos que esta Terra é tudo o que temos para assegurar o nosso presente e o nosso futuro. Para o defender precisamos de todas as pessoas.

Mas como é que se cria esse movimento se as pessoas mais afectadas pela crise climática (as do Sul Global, as mulheres, as comunidades racializadas, as mulheres, as pessoas LGBT+, quem trabalha, entre outros) não dispõem das ferramentas, do tempo ou do poder político para fazer essas exigências?

Isso implica que a luta climática precisa de criar alianças com as comunidades, com as forças políticas que entendem que o caminho a seguir terá de passar por mudanças estruturais no nosso sistema socioeconómico, alterando os modos de produção, de consumo ao invés de insistir na culpabilização pessoal e na aposta nos projectos de greenwashing. A luta por justiça climática tem de ser uma ferramenta para as pessoas que mais precisam dela, para que possam assegurar a sua segurança face às fragilidades do sistema, não podendo ser um instrumento de manutenção e reprodução da classe social dominante.

A feminista norte-americana Kimberlé Crenshaw cunhou o termo “interseccionalidade” que é uma teoria que pretende encontrar laços de opressão entre as experiências de identidade pessoal (como a discriminação étnico-racial, machista, de classe, etc.) para fortalecer um movimento de resistência ao sistema que coloca as nossas vidas em risco. Trocando por miúdos, é uma teoria que se foca no que temos em comum e como isso pode criar comunidades com força.

Precisamos de avançar na construção de um plano social e económico, construído democraticamente, que coloque a vida, a justiça no centro. Talvez isso pareça utópico para quem está a ler este artigo. Talvez seja. Mas por vezes (e nesta questão em específico), o utópico reflecte o necessário e o caminho que deve dar ênfase às nossas exigências. Porque, agora, não podemos mesmo fechar os olhos. Se há algo que a crise climática nos ensinou é que a realidade não é negociável.

Dia 24 de Setembro, a Greve Climática Estudantil sai às ruas com o mote internacional da interseccionalidade. É um apelo à união social que nos permitirá andar para a frente. Porque neste momento esta é uma luta que estamos a perder. Mas se estamos a perder significa que temos tudo a ganhar.