Porquê desenhar na praia?

Ver uma folha em branco pode custar no início, mas basta um traço ou uma pincelada para ver o desenho crescer. Depois de perder o medo do vazio, o desenho fica à solta, e nem as mãos mais experientes sabem onde irá parar.

Foto
Unsplash

Depois de um ano imprevisível, chegam finalmente as férias. Mais do que no resto do ano, há tempo para experimentar algo que fará soltar a imaginação mais tarde, até em dias mais ocupados. Refiro-me ao caderno de desenho, para ser aberto entre mergulhos refrescantes e leituras avulsas.

Mas voltemos à pergunta inicial: porquê desenhar na praia, quando há tantos livros para ler? Quando é tão fácil ceder ao peso do calor e adormecer ao sol? Precisamente porque o desenho é um momento de contemplação, mas também faz mover os dedos, depois as mãos, por vezes até o braço e o ombro. É como dançar sobre a folha de papel, e lá deixar uma marca daquele momento.

Naturalmente, o desenho pode ser feito em qualquer superfície. Mas o papel é leve e versátil. E se estiver protegido pela capa do caderno, melhor ainda. Além de resistir à agitação da viagem, as folhas juntas contam uma história. A história das férias, ou uma viagem na imaginação. Para começar a desenhar, escolher talvez um caderno fácil de transportar. Um A5 aberto transforma-se num generoso A4, suficiente para ganhar confiança e ensaiar a postura no caderno, como um músico ensaia no palco. 

Ver uma folha em branco pode custar no início, mas basta um traço ou uma pincelada para ver o desenho crescer. Depois de perder o medo do vazio, o desenho fica à solta, e nem as mãos mais experientes sabem onde irá parar.

É caso para lembrar o habitual “eu não sei desenhar”. As aulas de desenho e os estudos na sala de aula. Mas o desenho nada mais é do que a forma de sensações, emoções e pensamentos. Pode ser tão instintivo como escrever na areia da praia, até que uma onda apague. Pode ser isso mesmo: um acto, um momento de atenção e introspecção, mais do que uma marca. 

O desenho pode, finalmente, ser mostrado aos amigos e à família, ou permanecer no abrigo das folhas que o amparam, de um caderno fechado, pessoal e intransmissível. Mesmo deixado no segredo da intimidade, o desenho vale a pena. Vale pelo momento, em que o olhar, com todos os outros sentidos, é desperto e relaciona dados sensíveis numa nitidez surpreendente. Um momento em que as novas ideias florescem, nascem novos projectos e lançam-se novos planos para o fim da pandemia.

Desenhar na praia é também espaço para a experimentação: fazer colagens, ilustrar a chegada das bolas de berlim em banda desenhada ou aguarelar a linha do horizonte. E, claro, escrever versos, desenhar constelações. Com novas ideias, só a margem das folhas é o limite.