Atletas pela verdade

Existe sempre a tendência de se atribuir a determinada dieta, alimento ou suplemento a razão do sucesso ou longevidade de algum jogador, quando o pensamento deveria ser exatamente o oposto.

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É normal grande parte dos atletas terem nutricionistas seja de forma individual seja nas equipas onde se inserem Kim Kyung-Hoon/Reuters

Este é um verão marcado por duas grandes competições desportivas (Europeu de Futebol e Jogos Olímpicos) e como sempre nestas situações surgem vários relatos sobre as dietas e suplementos mágicos de muitos atletas.

Se há alguns anos a nutrição no desporto se reduzia a “comer massa antes dos jogos e bananas durante os mesmos” e era totalmente desprezada em muitos contextos competitivos (com particular incidência nos desportos de equipa onde o talento muitas vezes tem mais influência do que as questões meramente “físicas”), hoje a realidade é totalmente diferente e para melhor. É normal grande parte dos atletas terem nutricionistas seja de forma individual seja nas equipas onde se inserem (praticamente todos os clubes da primeira e segundas ligas de futebol têm nutricionistas nas suas equipas médicas) e esta é sem dúvida das áreas de maior desenvolvimento nos últimos anos no que toca à otimização da performance desportiva.

Esta mudança foi de tal forma visível que hoje assistimos a um fenómeno bastante interessante que é a “gourmetização nutricional” do atleta, onde a medicina alternativa ganha terreno até porque, convenhamos, tem tudo para resultar do ponto de vista da entrada na mente do jogador. A “personalização” de vários suplementos sem evidência científica, a atribuição de poderes mágicos a alimentos que não os possuem e o preço bastante elevado que, por norma, estes acompanhamentos possuem é um cocktail perfeito para o típico jogador que procura um acompanhamento “especial” e “premium”.

Em boa verdade, não existe propriamente um problema na existência na alimentação de um atleta de produtos como sal dos himalaias, clorela, spirulina, curcumina e uma “overdose” de ovos e abacate ao pequeno almoço (não muito aconselhável para quem queira controlar a massa gorda), desde que isso não descure o essencial. E o que é o essencial? É basicamente ingerir uma quantidade de hidratos de carbono que potencie quer a performance quer as adaptações metabólicas ao treino (daí as quantidades terem de ser diferentes ao longo da semana); ingerir uma quantidade de proteína suficiente para manter uma massa muscular saudável (não sendo obrigatória a escolha de um suplemento de proteína isolada e hidrolisada quando não existe intolerância à lactose comprovada); estar convenientemente hidratado (não necessariamente com água alcalina); tomar na devida dose e timing os suplementos com verdadeira evidência científica, após a sua experiência positiva em treino (creatina, cafeína, beta-alanina, bicarbonato, nitratos, tart cherry e outros suplementos nutricionais que se destinem a colmatar défices comprovados clinicamente).

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"Hoje assistimos a um fenómeno bastante interessante que é a 'gourmetização nutricional' do atleta, onde a medicina alternativa ganha terreno" Getty Images

Infelizmente os mesmos proponentes da nutrição alternativa gostam de desaconselhar o essencial com o objetivo de serem distintos, dificultando ainda mais o trabalho aos nutricionistas que gostam de pautar a sua atuação pela evidência científica. Com o jejum intermitente existe um fenómeno semelhante, dado que dificilmente melhorará a performance de um atleta de elite. Estudos feitos em sedentários ou praticantes regulares de exercício não podem ser extrapolados para atletas “a sério”, e tendo em conta que a alta intensidade exigida a todas as competições é movida a hidratos de carbono, não é de todo a melhor ideia promover estes protocolos no alto rendimento.

Uma vez que este tipo de abordagens alternativas faz com que as pessoas que os cumprem se sintam bastante especiais, é normal que gostem de as partilhar convictamente em entrevistas e nas redes sociais. Como tal, existe sempre a tendência de se atribuir a determinada dieta, alimento ou suplemento a razão do sucesso ou longevidade de algum jogador, quando o pensamento deveria ser exatamente o oposto. Ou seja: o sucesso e a longevidade de qualquer atleta não são devido a essa dieta, mas sim, apesar dessa dieta, o que só releva a sua capacidade de treino dentro do campo e do chamado treino invisível que passa pela higiene do sono, restrição de álcool, tabaco, para além da genética.

Por isso, por mais sucesso que tenha um atleta, ele ainda não é cientista nem dita leis daquilo que é o consenso geral sobre nutrição e performance. O argumento “comigo resulta” é totalmente válido e todas as pessoas que trabalham no alto rendimento sabem que não é de todo indicado contrariar crenças e deixar o atleta desconfortável nos seus hábitos e rituais. Saber traçar a linha entre o que “mal não faz” e entre o que pode ser prejudicial à performance e um mau exemplo para as futuras gerações é imperativo.