Sesimbra: o mar servido à mesa

Da Praia da Califórnia até ao Farol do Molhe, há quatro quilómetros de passeio à beira-mar onde a boa comida se junta aos vinhos da região, em casas que já somam várias décadas ao serviço da cozinha local e outras que se têm vindo a reinventar. A completar o roteiro, algumas moradas para alimentar as outras horas do dia.

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Elencar todos os motivos que fazem merecer uma visita a Sesimbra é falar obrigatoriamente do mar, do cheiro da grelha que começa a aquecer às primeiras horas da manhã para receber o peixe que chega da lota, da azáfama das peixeiras no mercado municipal. É também falar da paisagem única, entre a serra e o mar, da praia paradisíaca, com areia branca e água translúcida, e da avenida marginal, arejada como poucas e com vista privilegiada para o castelo. Mas é, sobretudo, falar do muito bem que se come e bebe por cá. 

A oferta gastronómica sempre foi honesta e, por isso, profundamente ligada ao produto do mar e à tradição piscatória, com um rigor muito particular: peixe é peixe e marisco é outra coisa. Isto é, apesar de ambos se cruzarem à mesa em diversos restaurantes da vila, quando é para levar o assunto a sério, é importante saber que há sítios específicos para comer bom peixe, grelhado ou em caldeirada, um dos pratos incontornáveis de Sesimbra, e outros mais dedicados ao marisco. 

Ficam, em sugestão, quatro restaurantes para gostos distintos, com ementas que variam desde a cozinha tradicional até criações mais aventureiras, sempre com o foco no peixe e marisco locais. Para dar ao roteiro a ambição de satisfazer apetites para todas as horas, acrescentamos algumas paragens estratégicas para repor os níveis de açúcar, para o bem-vindo copo de final de dia e para quem quer alimentar o gosto pelos vinhos da Península de Setúbal. 

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Um brunch vegetariano 

No Aloha Café, a proposta é equilibrar os excessos alimentares com um brunch (14 euros) vegetariano, do qual fazem parte a torrada de abacate, as panquecas de alfarroba, o iogurte com granola e fruta, o carpaccio de tofu e o chili de feijão vermelho, acompanhados do sumo do dia, meia de leite ou chá biológico. Para as outras horas do dia, há wraps, saladas, bowls e tábuas com húmus, guacamole, patês vegetais, fruta fresca e frutos secos, para partilhar. 

Aloha Café
Avenida 25 de Abril, Edifício Âncora, Loja 9PSesimbra 
Tel.: 964479474 

Comida de tacho e almoços de família 

A Casa Mateus reabriu há oito anos pelas mãos do filho e do neto do fundador, que já tinha o restaurante desde 1927, e é, sem grande espanto, onde se come uma das melhores e mais genuínas caldeiradas da vila, que prima não só pela confecção exímia, bem apurada, mas também pela variedade de peixes, com presença da raia, safio, tamboril, caneja, pata-roxa e espadarte, aconchegados numa cama de batata, tomate e pimentos. Tudo no ponto e com óptimas sugestões de harmonização com vinhos da Península de Setúbal, destacando-se o branco de arinto e viognier da Herdade da Comporta. O espadarte-rosa com tomate, cebola e salsa é igualmente imperdível, tal como a massada de peixe que, em dias de muito calor, sai em catadupa e chega à mesa ainda a fumegar, na panela onde foi preparada. 

Casa Mateus
Largo Anselmo Braamcamp, 4Sesimbra
Tel.: 963650939 
Preço médio: 25 euros 

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Mariscar com os pés (quase) na areia 

Na restauração, há dois tipos de negócio de família que muda de geração: os que fracassam, por descuido ou desinteresse dos mais novos, e os que não só prosperam como honram o legado. É este o caso de Rita Chagas, que há três décadas tomou a liderança do Ribamar, casa que este ano celebra 71 anos de vida

A vista para o mar – está mesmo em frente à praia – serve de aviso para o que aí vem: marisco fresquíssimo, tratado com o rigor de quem conhece o produto de olhos fechados. Quem chega vem à procura do prato real de marisco (49,95 euros), que reúne uma selecção variável do que o mar entregou no dia, e da não menos famosa sopa rica de peixes e mariscos. As ovas de choco podem servir de amouse-bouche para uma refeição mais ligeira, com passagem pelas ostras do Sado e o inimitável bife de espadarte à Ribamar. Seja qual for a opção, recomenda-se a harmonização com um branco da Península. A carta tem oito títulos de referência, desde um monocasta Terras do Pó, da Casa Ermelinda Freitas, até sugestões mais incomuns que, confie-se, equilibram bem com o marisco. É o caso do Quinta de Camarate branco doce que, embora mais direccionado para sobremesas, é óptima companhia para o que vem do mar, pelo aroma delicado, complexo e com notas de tília. 

Ribamar
Avenida dos Náufragos, 29, Sesimbra
Tel.: 212234853
Preço médio: 30 euros

Ribamar
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Vai um docinho? 

A Gelataria Fini, em plena marginal, tem ao dispor 16 sabores artesanais, sem corantes ou conservantes, que variam consoante a época e aos quais se pode acrescentar uma ou várias das 20 coberturas sugeridas. Na dúvida, é deixar a gerente escolher e aceitar a explosão de cor e sabor que há-de chegar à mesa. Se é para ser, que seja numa taça e com tudo a que se tem direito (desde 2 euros).

N’O Melhor Croissant da Minha Rua, no coração do centro histórico, encontra-se uma boa desculpa para transformar um simples lanche numa refeição memorável. A casa nascida em Sesimbra, que entretanto já se estendeu a outros pontos do país, aventurou-se nos recheios doces e salgados, do frango ao Kinder Bueno, passando pelo salmão e pelo requeijão com doce abóbora e nozes, para acrescentar à massa fofa e doce de que são feitos os croissants

Fini
Avenida dos Náufragos, 15ASesimbra 
Tel.: 211931795 

O Melhor Croissant da Minha Rua 
Rua Serpa Pinto, 30Sesimbra 
Tel.: 210941501

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Vinho para levar 

“As bebidas, a determinado ponto, deixam de ter preço.” Este é o ensinamento mais valioso que se traz de uma visita à Garrafeira de Sesimbra, a mais antiga da vila, com 37 anos, e onde, entre mais de três mil referências de vinhos e espirituosas, com grande destaque para os produtores da Península, há um raro exemplar de moscatel da José Maria da Fonseca, de 1922, à espera de alguém que ofereça um valor justo por ele. “Quanto?” Não se sabe. Será aquilo que Vasco Alves, dono da casa, considerar adequado a um vinho desta categoria. 

Mas também há muitos e bons moscatéis mais jovens a partir de 4,95 euros. O Moscatel Roxo Superior, de Domingos Soares Franco, é o que sai mais, por ser “objectivamente um dos melhores na relação qualidade-preço e aquele que se pode beber ao jeito de cada um sem perder características”: à temperatura ambiente, refrescado no frigorífico ou com uma pedra de gelo, “idealmente com casca de limão, para equilibrar o doce”. 

Garrafeira de Sesimbra
Rua da República, 46, loja 12, Sesimbra
Tel.: 965121080

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Cozinha viajada inspirada na tradição 

Quando há três anos Pedro Mateus e Paulo Carvalho decidiram abrir um negócio a dois, apareceu-lhes o espaço da antiga marisqueira O Zagaia à espera de vida nova. Mantiveram o nome – em equipa que ganha, já se sabe... – e comprometeram-se a manter o legado gastronómico da casa, ligado sobretudo ao marisco, com um espaço que “encaixaria em qualquer capital europeia”.

Jovem, arejado e descomplicado, O Zagaia “trouxe novidade com um pezinho na tradição” e foi isso que Paulo, chef sesimbrense que já passou pelas cozinhas do Tavares e de Kiko Martins, aplicou na ementa. “Quisemos dar um twist à mariscada tradicional, com pratos criativos que mantenham o respeito pelo produto”, conta. À lula com manteiga de carabineiro, mexilhões com leite de coco e lima, e ao lingueirão com molho holandês, juntam-se o arroz de carabineiro e o prego do lombo, “sobremesa” obrigatória depois do marisco. Tudo regado a Brejinho da Costa Colheita branco. 

Nas sobremesas, o moscatel roxo Horácio Simões acompanha o granizado de manjericão com farófia, espuma de goiaba, morango laminado e petazetas. Para algo fora da caixa, há uma selecção competente de runs. Descendo até à marginal, encontra-se o novíssimo O Batel (Avenida dos Náufragos, 3), “segundo filho” da dupla Pedro e Paulo, onde o receituário local é apimentado com uma aposta ambiciosa na carne. Às ostras, às amêijoas e ao ceviche com peixe do dia juntam-se a carne maturada e o bife tártaro, propostas raras por estas bandas e que combinam com um jantar na esplanada à beira-mar. 

O Zagaia
Rua Dr. Peixoto Correia, 33, Sesimbra​
Tel.: 212233117
Preço médio: 30 euros​

O Zagaia
O Zagaia
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Jantares criativos sem pressas 

A fórmula perfeita para conhecer o Padaria é chegar ao almoço e não fugir das sugestões do peixe do dia e ficar até ao jantar, para o menu de degustação (70 euros), desenhado a régua e esquadro pelo chef Pedro Gomes e o anfitrião, José Manuel Rasteiro. É o próprio que diz, “Só trabalhar com peixe local é condição sine qua non para a criação de uma cozinha sem artifícios”. 

Reinventar o “melhor peixe do mundo” é um dos desafios a que se propõe esta casa, que desde logo apresenta criações como as ostras com maçã fermentada, tapioca e óleo de café ou um ceviche cujo leche de tigre chega em forma de granizado. Ambos fazem parte do menu de degustação, cuja estrela é o “rissol” do chef, uma espécie de rissol invertido com uma capa fina e gelatinosa do que seria o recheio, e por dentro, um aveludado de peixe que derrete na boca e que deve ser harmonizado com um branco fresco e frutado como o Grande Reserva Boal 2017, da Casa Horácio Simões. 

A carta de vinhos é, porventura, a mais completa da vila, com mais de 300 referências da Península de Setúbal, muitas a copo. O ambiente é requintado sem cair em pretensões e na esplanada com vista para o mar a banda sonora vai variando entre fado, ópera e música clássica. 

Padaria
Rua da Paz, 5-13, Sesimbra
Tel.: 212280381
Preço médio: 40 euros​

José Manuel Rasteiro, anfitrião do Padaria
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Para acabar o dia ou começar a noite 

Entrar no Gliese é entrar noutro planeta. Os tectos em arco, a mobília de design futurista e as ilustrações provocadoras na paredes já seriam motivos suficientes para nos sentirmos noutra dimensão, mas mais adiante, a grande surpresa: uma sala ampla com pista de dança e duas pistas de bowling.

As especialidades são os mojitos de fruta, as sangrias e os cocktails de autor [ver caixa], que Jorge Patinhas compõe com o rigor de quem conduz uma orquestra. Para dar novo impulso, Fernanda Anacleto e os dois irmãos com quem partilha o negócio decidiram refazer a carta de snacks, agora mais virada para os petiscos de peixe. Tudo para picar sem cerimónias e acompanhar com um copo de vinho regional. No final, não há como não alinhar num dos cafés de assinatura ou num cocktail. Está aberto todos os dias, das 10h às 2h e oferece o final de dia perfeito para ver o sol a desaparecer no mar.

Gliese 
Praça da Califórnia, lojas 2I-2J, Sesimbra
Tel.: 212235019 ​


Este roteiro foi publicado no n.º 1 da revista Solo.