“Ficar em quarto é a coisa mais horrível da minha vida”

Auriol Dongmo ficou a cinco centímetros da medalha de bronze na final olímpica do lançamento do peso feminino.

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Reuters/ANDREW BOYERS

A expressão “logo de manhã, pela fresquinha” não se aplica a Tóquio em Agosto. Temperaturas a bater nos 40 graus e uma humidade no ar de acima dos 60 por cento fazem com que a capital japonesa não seja o melhor sítio para andar ao ar livre nestas horas. Doze mulheres estavam obrigadas a fazê-lo nesta manhã, as finalistas olímpicas no lançamento do peso, uma delas Auriol Dongmo, que não gosta de competir com calor. Mas nem foi por isso. Era igual para todas. A portuguesa acabaria por ficar com o pior lugar de todos, um frustrante quarto posto e a míseros cinco centímetros de chegar ao bronze nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Talvez até mais frustrante do que o 12.º lugar que conseguira na final há cinco anos no Rio de Janeiro, a competir pelo país onde nasceu, os Camarões – começou essa final com um lançamento fora do cone e acabou com 16,99m. Cinco anos depois, em Tóquio, Auriol já não era uma lançadora agradecida só por está na final. Em cinco anos, passou a ser uma das melhores do mundo e, para se ter uma ideia do quanto evoluiu, o seu primeiro lançamento foi a 19,29, uma diferença de mais de dois metros em relação a 2016.

Era um lançamento promissor, que a deixava temporariamente no terceiro posto, atrás de duas que começaram a marcar a diferença logo de início, a chines Lijao Gong e a exuberante norte-americana Raven Saunders, com cabelo pintado e máscara de Hulk. À segunda ronda, Auriol não melhorou (18,95m) e foi ultrapassada pela eterna Valerie Adams, bicampeã olímpica em 2008 e 2012, ainda bem capaz de se elevar nos grandes momentos aos 36 anos – fez 19,49m no segundo ensaio e 19,62m no terceiro.

Foi esta a marca a que a gigante da Nova Zelândia se agarrou até ao final do concurso e era esta a marca que a portuguesa tinha de ultrapassar. Auriol entrou sem problemas no grupo das oito que iriam aos três lançamentos finais e precisava de um lançamento perto do seu recorde nacional (19,75m) para chegar às medalhas. Melhorou bastante no quarto lançamento (19,57m), manteve o nível no quinto e no sexto (ambos com 19,45m), mas não foi suficientemente longe para atacar o terceiro lugar de Adams e, muito menos, o primeiro lugar de Gong, confirmado com dois ensaios acima de 20 metros (20,53m e 20,58m), ou o segundo de Saunders (19,79m).

O desalento no rosto de Auriol dizia tudo. Ela tem sido uma das melhores mundiais nos últimos dois anos, com títulos e medalhas conquistados, e saiu de Tóquio sem nada. E sem desculpas. “Claro que é o pior lugar. Mas pronto, já não há nada a fazer agora. Eu estava a sentir-me bem no aquecimento”, disse a lançadora portuguesa, sem explicação para fracasso. “Não sei o que se passou. Estava bem, mesmo com calor. O calor estava na cabeça de todo o mundo, não só na minha cabeça. Dói muito.”

“Se Deus não quer…”

A portuguesa nascida nos Camarões sentia que tinha mais para dar nesta manhã que estava a torrar a cabeça de toda a gente. E que não deixou de tentar até ao último lançamento – foi, aliás, no último lançamento que garantiu em Março passado o título de campeã europeia em pista coberta. “Podia sair em qualquer momento, estava com esperança até ao fim, não consegui. 20 metros? Já fiz muitas vezes nos treinos e estava com esperança que fizesse hoje em competição.”

Parte da razão para Auriol Dongmo viver em Portugal desde 2017 está na sua religiosidade. A lançadora do Sporting vive e treina em Leiria, perto de Fátima, e é uma católica devota. “Todas as coisas que acontecem na nossa vida é Deus que quer. Se não quer, não acontece”, disse. Zangada com Deus por não ter ganho uma medalha? “Como é que posso ficar zangada com Ele? Não posso. Um bocadinho triste, com certeza. Mas não chateada.”